e domingo houve sardinhada, outra vez

Hesito em escrever isto. Quase dez anos se passaram sobre a sua morte e eu continuo a teimar que as portas se abrem para os meus fantasmas. Tanto tempo e eu continuo sem crescer, para além dele.

Ouço a porta gingar mas não entra ninguém. Em outros tempos, mais próximos da sua morte, acreditava que era ele que ali chegava para finalmente se despedir. Nesses momentos costumava lançar-me sobre uma folha de papel e quase alucinado deixava que ele se fosse escrevendo por lá. Ainda hoje quando leio esses gatafunhos vejo neles a presença, não dele, mas da vontade de o julgar ali perto de mim, numa espécie de invocação que me confortava. Sei-o agora que ele continuou sempre partindo, um bocadinho em todas as madrugadas em que acordei e eu, já sem a capacidade de o inventar por ali, fui ficando mais só, até que as palavras deixaram de o saber escrever. Sobra-me hoje todo o resto do mundo, recheado generosamente com os afectos daqueles de quem me rodeei, mas olho para dentro e continuo a tocar um buraco fundo e vazado no lugar que ele tinha ocupado. Depois dele nunca voltei a ser do tamanho que tive. Os anos foram passando, os cabelos fazendo-se grisalhos, a minha vida cresceu, mas ainda assim nunca mais senti de novo a firmeza que antes já houvera sentido dentro de mim. As pessoas que nos são importantes são essas que nos fazem sentir orgulhosos de nós aos seus olhos e perdê-las é como se subitamente ficássemos sem ego, como se caísse uma cortina de vulgaridade sobre nós, uma lassidão de coisa-comum que deixamos, indolentes, ir ficando em nós.

Hoje, atento, já nada ouço. A porta não ginga, (nunca gingou) e eu transformei-me num alvoroçado coleccionador de memórias. Ele partiu sem me avisar, mais esta vez, deixando-me apenas essa parte em que sou filho, esse que já adulto nunca acabará por crescer. E sem que consiga compreender isto em mim, esta parte minha que afinal não era toda de mim, insisto em resguardar esta criança que envelheceu sem nunca ser grande, esse púbere deixado entre dois bocados de vida e que dentro de mim se continua disso a interrogar, mimado, arreliado até, da falta de resposta. Nos intervalos da sua morte, onde vivo, vou teimando em parecer o homem que nunca parou, o pai diligente dos meus dois filhos, o amigo confidente de sorriso confortante, o irmão robusto, o marido presente, o chefe rigoroso e competente, como se todas as personagens que vou trajando tivessem o fito de o imitar, de lhe prolongar em mim a sua robustez.

Por hipótese terá sido por isso que ele nunca se despediu, para que eu pudesse nesta fúria de me sondar descobrir que, melhor que ser parte do brilho nos olhos de um outro é ser os olhos onde os outros se podem ver brilhar. E isto seria assim, ele, sorrindo-me, como que a despedir-se, encaminhando-me para o lado de fora, lá mais perto de onde vivem os outros e onde nós porventura faremos falta.

Sim, um dia, como ele, também cairei. Mas não quero que ninguém sinta a minha perda tanto como eu senti a dele. Quero apenas poder partir com aquele brilho nos olhos … cheios de gente e de vontade cumprida.

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