Monthly Archives: Setembro 2009

interrogações vocacionais

Precisava obter informação sobre:

– hipótese de estágios/voluntariado no Zoo de Lisboa para jovem de 16 anos

– escola de teatro/representação para um de 13 , preferencialmente no lado oriental de Lisboa

As informações relevantes serão remuneradas por futuro livre-trânsito no Oceanário de Lisboa durante um ano e um bilhete de camarote para estação no S. Carlos no ano de 2019


Recordações de uma Cicatrização (e 3 anos depois…)

 

São 5h da manhã e continuo sem conseguir arrumar o dia. Falta-me a parte do seu termo que me remete para o dormir. De cada vez que fecho os olhos algo repica dentro de mim e me impede de o deitar, ao dia que já vai longo. Sei que daqui a pouco ele se levantará, inquieto e que me levará com ele, como se, apesar de me trazer absolutamente fatigado, não quisesse que eu acabasse já, como se quisesse garantir que em cada ciclo de 24h a mim me coubesse permanecer assim, vendo-lhe o fim e o início juntarem-se, infinitamente. E todos os dias se repete esta cena nocturna, silenciosamente, eu tentando, em vão, deitar o dia às escondidas da noite. E todos os dias os dois se juntam levando-me com eles em deambulações pela casa. E um fatiga-me e o outro impede-me o descanso. Travamos esta guerra há mais de dois meses, ininterruptamente. Resignado, preparo um nescafé fraco e beberico com ele o resto do wisky que ficou no fundo de um copo. Faço tudo isto com uma mão apenas. Levanto-me de novo, com ele irrequieto, a pesar-me no corpo. Damos uma volta à casa, como se revisitássemos cada assoalhada, colhendo e largando depois, distraidamente, cada uma das peças que encontramos pelo caminho, matando o tempo e as vontades em gestos de sonambulismo. E não chega, nunca chega. Volto a vestir então uns calções, calço umas chinelas e saio para a rua. Uma, duas portas, que destranco, com uma mão apenas. Dobro a esquina, subo o beco e volto a descê-lo, e depois retorno para dentro. Os mesmos movimentos, a repetirem-se, mais cansados, espero. Tudo recomeça agora uma outra vez. Sento-me na borda da cama mas não preciso de mais que isso para perceber que não vale a pena. Ele continua lá, dentro de mim e espera que, tal como o sono que havia em mim, também eu desista. Há dois meses que espera. Abro a mão e dou duas voltas ao isqueiro que tenho na sua palma. Apago de novo as luzes e fico depois a brincar com a sua chama no escuro. Vou pensando que me habituei a trazer comigo um sono que não consigo curar. Agora já não me apetece pensar e a chama já está débil. Tenho brincado muito com ela nestes últimos tempos. Mas agora já não quero pensar, nem no isqueiro sequer. Nem queria sentir nada, como se estivesse simplesmente a dormir. Deixo-me cair para trás e fico de costas na cama. O tecto tem um rendilhado nos cantos, umas cornucópias de gesso em que nunca tinha reparado. Mas não deveria estar a tomar a atenção a isso, nem deveria sequer pensar que não deveria tomar atenção a nada. Já devia ter aprendido a tapar vagarosamente a consciência e enganar o dia e a noite naqueles breves momentos que seriam o suficiente. Abro a mão. O isqueiro cai. Deveria ser tão fácil como isso assim. E lá fico, eu, o dia e a noite, e a mão aberta, sem nada, demasiado vazia do desejo que sempre se habituou a segurar. Há 65 dias.

 10 de Agosto de 2006

 

Que raio de homem este que a si quase se devora no que tem para cumprir e que logo ali, exuberante, alteia orgulhos, para depois mais tarde, envergonhado, se refundir num silêncio de vergonha, escondendo de si essas vontades distraídas que o atraiçoaram de novo. Que homem este, insensato, que levanta paredes no ar para de seguida as fazer derrocar sobre a sua cabeça. Que homem este de que me faço que tanto de si despreza?


e a propósito

alcançando a iberia - cabo das gatas

 

… do tema vertente (ainda que efémero) deste blog, que não só o mar, reedito texto antigo:

Quem nunca viveu o mediterrâneo a partir do mar desconhecerá provavelmente algo que influenciou marcadamente todas as populações que nas suas costas se acomodaram. Ao contrário da face atlântica onde a aspereza do oceano e a grande amplitude das marés impele as pessoas para uma cota mais segura, no mediterrâneo essa variação é por vezes inferior a um metro e a linha de água fica assim quase desvanecida. Este pormenor é de uma importância extrema para a relação que os seus povos estabeleceram com o mar.

Nas escarpas oceânicas o mar nem sempre é amigo e a distância é algo que se deve interpor com ele. Aí cativa o inóspito e entre nós e ele há sempre margens selvagens que apelam ao épico, ao esforço com que nele mergulhamos, mas também a um respeitoso distanciamento. Todas as actividades que entrosámos com ele tiveram sempre rasgos heróicos, onde guerreámos com a sua ira vezes sem conta, onde lhe tememos o gigantismo e onde, temerosos, nos apequenámos nas suas histórias de final imprevisível. E se nos deixámos ir e assim nos oferecemos ao seu destino, aventureiros, temerários, que é assim que nos conta a nossa história, não foi porque nele encontrássemos caminho, mas sim antes destino, e porque nele ousámos ir além de nós, riscando histórias na sua infinitude, volvendo destinos na sua espuma, fazendo(nos) quase lendas.

No mediterrâneo tudo é oposto. O mar é apenas o limite ténue da terra, essa fronteira desvanecida para onde todos os povos ilhéus se viraram e dela se fizeram depender. A linha da costa é macia, quase imperceptível, frágil, e envolve-nos nessa proximidade como só nesse mar conheço e a história da humanidade confirma. Há uma relação serena com o mar, e ao invés das grandes conquistas e dos desafios pelo desconhecido que ocorreu connosco, povo atlântico, por influência do agreste, aqui a maré sempre funcionou como o caminho mais fácil, o ponto de partida para outros lugares vizinhos, a alternativa menos árdua do partir.

No mediterrâneo descobre-se, nos oceanos conquista-se. Também sabe ser bravo o Mediterrâneo, que disso reclama de ser o maior mar do mundo, mas a sua massa de água é feita do que sobra da vontade do atlântico que sobre ele a derrama por entre as colunas de hércules. É tudo uma questão de marés, de oscilações, de maior ou menor previsibilidade, de irascibilidade, do humor com que estas águas se fazem vozear. E é assim com os mares e assim é também com os homens. As pessoas também são assim, repito eu feito marinheiro (que as léguas no mar, ainda que poucas, são mais que aquelas que sou capaz de entender nos homens), que as pessoas são como o mar: Tal como os oceanos umas são de agitadas marés, e nessa oscilação de vontades ora se mostram acessíveis e até sedutoras ora lançam estuporados gestos de antipatia e gritos de cólera com que sacodem aqueles a quem no fundo se querem prender; Outras são mais estáveis, mais mansas, mais doces, mais previsíveis e reconfortantes, são mediterrânicas e por isso delas reconhecemos sempre a linha d’água, e nelas deixamos acampar a nossa confiança. Numas pode-se viver na beira das suas margens sem recear que um dia estas nos fujam ou invadam, outras são ciclones permanentes a desafiar a perseverança de quem ainda assim delas gosta.

Eu? Eu se fosse mar banharia a costa bretã: que lá é tal a maré que o que agora é terra é amanhã mar. Abraços inábeis, franjas de água incontroláveis, humores para além da nossa vontade, marés grandes demais para o mar que os outros querem ter de mim.  


ao largo de Gibraltar, mar gruesa

vagalhao

Esta foto tem um intuito: recordar-me para deixar registada nesta ‘gaveta’ a noite que se lhe seguiu. Aqui, ao fim do dia, o mar já crescia, as vagas eram engrossadas e empurradas pelo vento de barlavento, esse mesmo levante que nos levava para fora do mediterrâneo, já em caminho de regresso, passando para além das colunas de hércules e que assim nos ia mergulhando numa noite que se prolongaria por mais de 12 horas de tempestade, com picos de quase 50 nós, a mais intensa que – e já vão quase 20 anos de med. – apanhei até hoje. Bela vela, bela embarcação, bela tripulação, belos momentos que um dia, quem sabe, quando voltar a sofrer do furor da escrita, aqui deixarei guardados.

É difícil falar do mar, este mar assim que nos entra para dentro. Mas mais difícil é deixá-lo calado.


noites mediterrânicas

jogando o "mentiroso" ao largo de formentera


embarcação desaparelhada,

cabos em terra, homem em processo de reintegração.

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