e a propósito

alcançando a iberia - cabo das gatas

 

… do tema vertente (ainda que efémero) deste blog, que não só o mar, reedito texto antigo:

Quem nunca viveu o mediterrâneo a partir do mar desconhecerá provavelmente algo que influenciou marcadamente todas as populações que nas suas costas se acomodaram. Ao contrário da face atlântica onde a aspereza do oceano e a grande amplitude das marés impele as pessoas para uma cota mais segura, no mediterrâneo essa variação é por vezes inferior a um metro e a linha de água fica assim quase desvanecida. Este pormenor é de uma importância extrema para a relação que os seus povos estabeleceram com o mar.

Nas escarpas oceânicas o mar nem sempre é amigo e a distância é algo que se deve interpor com ele. Aí cativa o inóspito e entre nós e ele há sempre margens selvagens que apelam ao épico, ao esforço com que nele mergulhamos, mas também a um respeitoso distanciamento. Todas as actividades que entrosámos com ele tiveram sempre rasgos heróicos, onde guerreámos com a sua ira vezes sem conta, onde lhe tememos o gigantismo e onde, temerosos, nos apequenámos nas suas histórias de final imprevisível. E se nos deixámos ir e assim nos oferecemos ao seu destino, aventureiros, temerários, que é assim que nos conta a nossa história, não foi porque nele encontrássemos caminho, mas sim antes destino, e porque nele ousámos ir além de nós, riscando histórias na sua infinitude, volvendo destinos na sua espuma, fazendo(nos) quase lendas.

No mediterrâneo tudo é oposto. O mar é apenas o limite ténue da terra, essa fronteira desvanecida para onde todos os povos ilhéus se viraram e dela se fizeram depender. A linha da costa é macia, quase imperceptível, frágil, e envolve-nos nessa proximidade como só nesse mar conheço e a história da humanidade confirma. Há uma relação serena com o mar, e ao invés das grandes conquistas e dos desafios pelo desconhecido que ocorreu connosco, povo atlântico, por influência do agreste, aqui a maré sempre funcionou como o caminho mais fácil, o ponto de partida para outros lugares vizinhos, a alternativa menos árdua do partir.

No mediterrâneo descobre-se, nos oceanos conquista-se. Também sabe ser bravo o Mediterrâneo, que disso reclama de ser o maior mar do mundo, mas a sua massa de água é feita do que sobra da vontade do atlântico que sobre ele a derrama por entre as colunas de hércules. É tudo uma questão de marés, de oscilações, de maior ou menor previsibilidade, de irascibilidade, do humor com que estas águas se fazem vozear. E é assim com os mares e assim é também com os homens. As pessoas também são assim, repito eu feito marinheiro (que as léguas no mar, ainda que poucas, são mais que aquelas que sou capaz de entender nos homens), que as pessoas são como o mar: Tal como os oceanos umas são de agitadas marés, e nessa oscilação de vontades ora se mostram acessíveis e até sedutoras ora lançam estuporados gestos de antipatia e gritos de cólera com que sacodem aqueles a quem no fundo se querem prender; Outras são mais estáveis, mais mansas, mais doces, mais previsíveis e reconfortantes, são mediterrânicas e por isso delas reconhecemos sempre a linha d’água, e nelas deixamos acampar a nossa confiança. Numas pode-se viver na beira das suas margens sem recear que um dia estas nos fujam ou invadam, outras são ciclones permanentes a desafiar a perseverança de quem ainda assim delas gosta.

Eu? Eu se fosse mar banharia a costa bretã: que lá é tal a maré que o que agora é terra é amanhã mar. Abraços inábeis, franjas de água incontroláveis, humores para além da nossa vontade, marés grandes demais para o mar que os outros querem ter de mim.  

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