Recordações de uma Cicatrização (e 3 anos depois…)

 

São 5h da manhã e continuo sem conseguir arrumar o dia. Falta-me a parte do seu termo que me remete para o dormir. De cada vez que fecho os olhos algo repica dentro de mim e me impede de o deitar, ao dia que já vai longo. Sei que daqui a pouco ele se levantará, inquieto e que me levará com ele, como se, apesar de me trazer absolutamente fatigado, não quisesse que eu acabasse já, como se quisesse garantir que em cada ciclo de 24h a mim me coubesse permanecer assim, vendo-lhe o fim e o início juntarem-se, infinitamente. E todos os dias se repete esta cena nocturna, silenciosamente, eu tentando, em vão, deitar o dia às escondidas da noite. E todos os dias os dois se juntam levando-me com eles em deambulações pela casa. E um fatiga-me e o outro impede-me o descanso. Travamos esta guerra há mais de dois meses, ininterruptamente. Resignado, preparo um nescafé fraco e beberico com ele o resto do wisky que ficou no fundo de um copo. Faço tudo isto com uma mão apenas. Levanto-me de novo, com ele irrequieto, a pesar-me no corpo. Damos uma volta à casa, como se revisitássemos cada assoalhada, colhendo e largando depois, distraidamente, cada uma das peças que encontramos pelo caminho, matando o tempo e as vontades em gestos de sonambulismo. E não chega, nunca chega. Volto a vestir então uns calções, calço umas chinelas e saio para a rua. Uma, duas portas, que destranco, com uma mão apenas. Dobro a esquina, subo o beco e volto a descê-lo, e depois retorno para dentro. Os mesmos movimentos, a repetirem-se, mais cansados, espero. Tudo recomeça agora uma outra vez. Sento-me na borda da cama mas não preciso de mais que isso para perceber que não vale a pena. Ele continua lá, dentro de mim e espera que, tal como o sono que havia em mim, também eu desista. Há dois meses que espera. Abro a mão e dou duas voltas ao isqueiro que tenho na sua palma. Apago de novo as luzes e fico depois a brincar com a sua chama no escuro. Vou pensando que me habituei a trazer comigo um sono que não consigo curar. Agora já não me apetece pensar e a chama já está débil. Tenho brincado muito com ela nestes últimos tempos. Mas agora já não quero pensar, nem no isqueiro sequer. Nem queria sentir nada, como se estivesse simplesmente a dormir. Deixo-me cair para trás e fico de costas na cama. O tecto tem um rendilhado nos cantos, umas cornucópias de gesso em que nunca tinha reparado. Mas não deveria estar a tomar a atenção a isso, nem deveria sequer pensar que não deveria tomar atenção a nada. Já devia ter aprendido a tapar vagarosamente a consciência e enganar o dia e a noite naqueles breves momentos que seriam o suficiente. Abro a mão. O isqueiro cai. Deveria ser tão fácil como isso assim. E lá fico, eu, o dia e a noite, e a mão aberta, sem nada, demasiado vazia do desejo que sempre se habituou a segurar. Há 65 dias.

 10 de Agosto de 2006

 

Que raio de homem este que a si quase se devora no que tem para cumprir e que logo ali, exuberante, alteia orgulhos, para depois mais tarde, envergonhado, se refundir num silêncio de vergonha, escondendo de si essas vontades distraídas que o atraiçoaram de novo. Que homem este, insensato, que levanta paredes no ar para de seguida as fazer derrocar sobre a sua cabeça. Que homem este de que me faço que tanto de si despreza?

Anúncios

2 responses to “Recordações de uma Cicatrização (e 3 anos depois…)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: