Monthly Archives: Outubro 2009

o Tejo

out2009 no tejo


de morrer lambido pela Primavera

O sol empanturrando-me as pálpebras. Depois a moleza da imprudente refeição a fazer agora com que se escorreguem abrandecidas as mãos sobre a cava do volante. E as linhas rectas da estrada engolindo horizontes pasmados, toque-toque, em ritmos entorpecidos a zunirem, traiçoeiros, os ruídos do sono. E assim sigo rolando, algures pelo meio da primavera, enrolando, que a vida aqui já quase me leva em estrofe onírica. Raia esculpido de alfinetes este sol empinado e bem sei que a semeada de anteontem agradece de lá do pátio, que por lá se empinam agora os viçosos caules nessas vigorosas alavancas de luz e que outros mais velhos sobrevividos do inverno avivam e agitam os tons vivaces da nova adolescência. Mas isso são razões do lazer, do além-dever, do mundo e do prazer, da natureza sossegada onde brinco e das minudências do fim do dia.

E teimo em lançar-me por este sol que lá desejo e até aqui se amanhã, mas não hoje de fronhas fulgentes para mim, que hoje tenho de seguir rolando, mesmo que ele assim, com lâminas de luz atravessadas na garganta deste desgastado náutilo da estrada. Que já prestes estive morrendo, naquela curva de ainda agora, e depois ali que ai quase me desaguava naquela luz. E os rails riscando-se a toda a mecha e continuo eu, esgueirando-me por entre eles, ainda sobrevivente, de volante na mão, as pálpebras, amolecidas, fingindo parar a velocidade e desafiando a primavera.

Abril de 2006


Lisboa … falsificada

out 2009

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Bergamo – la città alta

Desta última viagem por Itália volto mais convencido que nunca que Milão é a cidade das mulheres mais belas do Mundo. Mas apesar da sua monumentalidade – que também de pedra e cimento a tem – há qualquer coisa nela que me enfada depois de um ou dois dias de trajectos galgados ao acaso. Há um trote consumista que gira incansavelmente à volta da incontornável “Duomo” e do seu sopé de lojas, uma espécie de exaltação turística, que me irrita. Não saberei explicar melhor, mas Milão, sendo essa capital das mulheres bonitas e território de tão extraordinárias edificações históricas, e apesar disso, nada me diz.  

Por isso, a meio do terceiro dia e já dispensado da missão que ali me levou, decidi lançar-me na Lombardia: escolhi Bergamo, de poucas referências para mim, quase ao acaso. Que maravilha! O contraste da sua tranquilidade quase campestre com o bulício daquela metrópole de onde fugira, os matizes quentes das suas construções a reclamar de vida e sentimentalidade contra os frígidos e apressados cinzentos milaneses, tudo ali sussurra uma natureza doce e alegre. Depois, ao fundo, eleva-se sobre uma enorme colina a sua Città Alta, de tons ocres, numa orografia de tal forma sedutora, assim alçada tão acima do horizonte plano do resto da cidade, que se insinua num chamamento irresistível mesmo para um turista tão acidental quanto eu.

citta alta1

Foi ali, finalmente, que desta vez pude voltar a vestir a pele de ‘viajante’, daquele que se mistura com o silêncio do mundo e se dá ao tempo sem pressa, sem querer saber de si, para se deixar mergulhar naquela calmitude rara, quase geológica, com que se deita a observar o seu redor. Há no monumental algo a que nos devemos deixar entregar para melhor o compreender, como se um braço invisível de tempo cósmico nos fosse rodeando e nos fosse amansando da pressa, serenamente, ali levando-nos a pairar, como mera  partícula de gente, no admirar das obras que também o Homem, por vezes, faz concorrer com a natureza.

As mulheres de Milão são as mais bonitas do mundo, creio que já o terei afirmado, mas foi em Bergamo que me senti embolsar desta viagem. Que os sítios são como as pessoas – não basta que sejam belos, é preciso que nos façam sentir belos.

citta alta2


na neblina dos aplausos há pouca claridade para pensar

xutos 2006


5 anos de emissão

É muita palavra junta, é muita alarvidade gritada, são muitas janelas escancaradas e demasiado tempo para tanto desmazelo do ego e contudo, ainda que neste espaço já quase moribundo, vou insistindo nesta rotina de me contradizer.

 

Pois que sirva este momento para deixar mais umas:

O mensageiro

Foi-se me a carne. Resumo-me a uma banca de escrita onde faço assentar as minhas ossadas depuradas da atrapalhação das emoções. Cresce-me o espírito e arriba-se a escrita, cuidada e asséptica, quase aritmética – a caneta volteia nas minhas falanges com uma habilidade treinada. E escrevinho coisas que vão já para além de mim, das minhas hesitações. Aperfeiçoo-as. Aperfeiçoo-me, quase até ao impossível que a escrita permite. E contudo, descarnadas, descarnado, já não há quem escute.


falta aqui uma foto

Tuga no pátio, by Bill

Tuga no pátio, by Bill


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