Monthly Archives: Outubro 2009

o Tejo

out2009 no tejo


de morrer lambido pela Primavera

O sol empanturrando-me as pálpebras. Depois a moleza da imprudente refeição a fazer agora com que se escorreguem abrandecidas as mãos sobre a cava do volante. E as linhas rectas da estrada engolindo horizontes pasmados, toque-toque, em ritmos entorpecidos a zunirem, traiçoeiros, os ruídos do sono. E assim sigo rolando, algures pelo meio da primavera, enrolando, que a vida aqui já quase me leva em estrofe onírica. Raia esculpido de alfinetes este sol empinado e bem sei que a semeada de anteontem agradece de lá do pátio, que por lá se empinam agora os viçosos caules nessas vigorosas alavancas de luz e que outros mais velhos sobrevividos do inverno avivam e agitam os tons vivaces da nova adolescência. Mas isso são razões do lazer, do além-dever, do mundo e do prazer, da natureza sossegada onde brinco e das minudências do fim do dia.

E teimo em lançar-me por este sol que lá desejo e até aqui se amanhã, mas não hoje de fronhas fulgentes para mim, que hoje tenho de seguir rolando, mesmo que ele assim, com lâminas de luz atravessadas na garganta deste desgastado náutilo da estrada. Que já prestes estive morrendo, naquela curva de ainda agora, e depois ali que ai quase me desaguava naquela luz. E os rails riscando-se a toda a mecha e continuo eu, esgueirando-me por entre eles, ainda sobrevivente, de volante na mão, as pálpebras, amolecidas, fingindo parar a velocidade e desafiando a primavera.

Abril de 2006


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