Monthly Archives: Novembro 2009

ando cá com uma vontadinha …

de recolocar este post * com que reiniciei este despautério de palavras quando cheguei a este gaveto ,

… só que agora será para o voltar a fechar!

ou então não, que bastava só aludir a esta parte:  “… fui aos poucos descobrindo que, se as palavras nos contam, também sobre nós mentem. Que, se as palavras sossegam, também nos desassossegam. Que, se as palavras nos impelem para ainda mais dentro de nós, assim mesmo também nos podem asfixiar. Que, se as palavras nos serenam, afinal também nos podem enfastiar profundamente … E disso, de me ver assim menos que as palavras, hei-de fugir sempre, saltitando recomeços, uma e outra vez, tantas quantas forem necessárias para apagar indícios do que sei que não sou, do que sei que não sou apenas”

Enfim, nada de novo, portanto.


os excessos de maturidade podem ser enfastiantes

As pessoas crescidas têm sempre necessidade de explicações … Nunca compreendem nada sózinhas e é fatigante para as crianças estarem sempre a dar explicações.

[‘O Principezinho’, Saint-Exupéry]


(há tantas) pequenas coisas que me seduzem

 

Sua calor por todo o lado. Nós lá fora no abrigo do toldo pedinchando as aragens descuidadas que se esgueiram ao fim da tarde – como se o dia assim fugisse, silvando ao de leve – ventos térmicos, dizem. Come-se uma bolonhesa – mimos da mãe. O calor traz disparates já se sabe, embora seja coisa que só o género masculino é capaz de reproduzir em todo o seu esplendor, a fazer fé nas palavras da mãe. Rola a conversa.

– Oh pai, eu sou alfacinha não sou?
– Humm, quase Diogo, quase és.
– Quase??? Mas então eu não nasci em Lisboa?
– Nasceste. Mas com os banhos que te recusas a tomar …
– Ohhh. E que tem isso a ver?
– Alguma coisa. Na verdade nunca poderias ser exactamente uma alface.
– Porquê?
– Porque esse pivete …talvez couve … snif snif … Sim, quase alface, mas mais couve.

Cava-se um amuo profundo. Já do outro lado da mesa se alteia, esganiçada, a risada que entremeia um “Ohh, coitadinha da couvinha de Bruxelas”. Eu sorrio, contrariado, quase arrependido da graçola. Disfarço com olhos de faísca sobre o irmão. Atrapalho-me e vou atenuando desculpas em mim, que apenas pretendia no gracejo intentos pedagógicos, algo assim. Felizmente não houve tempo para mais: soa um “oh Zé, francamente” e interrompe-se o riso, calam-se as minhas interjeições de “vá lá Diogo” e o vento acaba por pousar completamente. Nesta folga, viro agulhas para o mais velho. Distribuindo.

– Pronto, agora vamos ter de gramar com os histerismos do alho francês.
– Alho francês? Quem? eu?
– Tens razão. Alho francês não. Talvez mais rabanete. Esse repolho que tens em cima da cabeça e que teimas em não desbastar tem mais ar de folhas de rabanete!

E pronto. Trocam-se papéis. Arrufos de onde vinha jactância, a euforia da contrapaga de quem se folga agora da humilhação já vencida. “ahhh, olha o rabanete, ahahhh” e a coisa assim a alternar-se. Duas garfadas, a conversa a desenvolver-se mais macia já, talvez sobre o Rock in Rio de que conseguimos ouvir murmúrios dali do pátio e a tachada de esparguete a esgotar-se.

O outro lá foi ao banho antes de se deitar e este já me pediu dinheiro para cortar o cabelo amanhã. As bolonhesas cá da casa, assim saboreadas em família, são sempre muito conversadas e estimulantes. A gente lá vai cavaqueando, entre duas garfadas e assim se dando a entender.

de uma “foto caseira” registada em Junho de 2006


(há tantas) pequenas coisas que me seduzem


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