(há tantas) pequenas coisas que me seduzem

 

Sua calor por todo o lado. Nós lá fora no abrigo do toldo pedinchando as aragens descuidadas que se esgueiram ao fim da tarde – como se o dia assim fugisse, silvando ao de leve – ventos térmicos, dizem. Come-se uma bolonhesa – mimos da mãe. O calor traz disparates já se sabe, embora seja coisa que só o género masculino é capaz de reproduzir em todo o seu esplendor, a fazer fé nas palavras da mãe. Rola a conversa.

– Oh pai, eu sou alfacinha não sou?
– Humm, quase Diogo, quase és.
– Quase??? Mas então eu não nasci em Lisboa?
– Nasceste. Mas com os banhos que te recusas a tomar …
– Ohhh. E que tem isso a ver?
– Alguma coisa. Na verdade nunca poderias ser exactamente uma alface.
– Porquê?
– Porque esse pivete …talvez couve … snif snif … Sim, quase alface, mas mais couve.

Cava-se um amuo profundo. Já do outro lado da mesa se alteia, esganiçada, a risada que entremeia um “Ohh, coitadinha da couvinha de Bruxelas”. Eu sorrio, contrariado, quase arrependido da graçola. Disfarço com olhos de faísca sobre o irmão. Atrapalho-me e vou atenuando desculpas em mim, que apenas pretendia no gracejo intentos pedagógicos, algo assim. Felizmente não houve tempo para mais: soa um “oh Zé, francamente” e interrompe-se o riso, calam-se as minhas interjeições de “vá lá Diogo” e o vento acaba por pousar completamente. Nesta folga, viro agulhas para o mais velho. Distribuindo.

– Pronto, agora vamos ter de gramar com os histerismos do alho francês.
– Alho francês? Quem? eu?
– Tens razão. Alho francês não. Talvez mais rabanete. Esse repolho que tens em cima da cabeça e que teimas em não desbastar tem mais ar de folhas de rabanete!

E pronto. Trocam-se papéis. Arrufos de onde vinha jactância, a euforia da contrapaga de quem se folga agora da humilhação já vencida. “ahhh, olha o rabanete, ahahhh” e a coisa assim a alternar-se. Duas garfadas, a conversa a desenvolver-se mais macia já, talvez sobre o Rock in Rio de que conseguimos ouvir murmúrios dali do pátio e a tachada de esparguete a esgotar-se.

O outro lá foi ao banho antes de se deitar e este já me pediu dinheiro para cortar o cabelo amanhã. As bolonhesas cá da casa, assim saboreadas em família, são sempre muito conversadas e estimulantes. A gente lá vai cavaqueando, entre duas garfadas e assim se dando a entender.

de uma “foto caseira” registada em Junho de 2006

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