o cemitério das palavras

 

Olhou de viés pela janela, de olhar abstraído, como se na indiferença do horizonte viesse a encontrar inspiração. Calcou por duas vezes na tecla Enter, vício de partida do palavreado mas também sintoma de uma forte hesitação, de um vazio que lhe ia inquietando o arranque do texto. Deixou-se ficar assim durante alguns minutos, desviando atenções entre o ecrã branco e a capa encerada do livro que tinha na sua frente. Depois, em ritmo pausado e solene, foi digitando: j…á…n…ã…o…v…o…l…t…o

A seguir fechou o portátil com uma desajustada serenidade face à decisão que anunciava, ergueu-se, ajeitou a roupa na cintura, esboçou um sorriso de cantos desvanecidos e abriu o “Dom Quixote” que vivia idolatradamente pousado sobre a mesa de vidro. Desfolhava-o agora com agitação. Sabia o que procurava, algures numa página lá pelo meio da sua espessura, sabia exactamente o momento e em qual dos seus 126 capítulos encontraria a frase que havia escolhido, essa que, agora descoberta, fazia fincada com o indicador, quase âncora, em jeito de a aprisionar. 

Lançou um olhar lânguido para o fundo da casa onde a família se debruçava sobre um qualquer lazer na mesa de jantar e deixou-se invadir por breves instantes num enternecimento de lágrimas inoportunas. Depois, mergulhou naquele mar de letras! O livro fechou-se com estrondo, pelo impulso da sua vontade, mas isso ficou desapercebido do resto da casa. Há muito que se haviam habituado a conceder-lhe a sua quase imaterialidade com a qual vivia mergulhado no seu mundo paralelo da escrita, o que tornaria inverosímil qualquer barulho que por acidente fluísse do seu lado.

 

Um dia alguém iria voltar a desembainhar a obra do Cervantes e, rolando-lhe apressadamente o espesso das páginas com os dedos lambidos, quiçá acabaria por passar pelo parágrafo onde acabara de se exilar. Teria assim a oportunidade, suficiente, para inspirar uma vez mais um pouco da luz do sol sobre a mornidão do papel onde agora vivia, ou até rever caras e barulhos das suas gentes familiares e isso haveria de ser bastante para aliviar as saudades que, ainda recentes, já começavam a parecer distantes.  

Estava agradado com a decisão que tomara, embora sobre ela tanto tivesse hesitado. Afinal não era de ânimo leve que alguém poderia decidir transpor-se para esse universo que acabara de escolher (*) e isso tão mais determinante e irrevogável ainda do que simplesmente morrer. Mas não tinha agora dúvidas sobre essa forma de eternidade que escolhera. Jazeria nessa soberba planície literária, arada por terras de La Mancha, objecto da maior inspiração humana que alguma vez acontecera e tão maravilhosamente distante do mundo turbulento que deixara. Sim – assentia de novo para consigo, encostado à vírgula do terceiro parágrafo onde encontrava a doce Dulcineia em vias de se entregar ao seu Cavaleiro da triste figura  – ali poderia finalmente respirar a perenidade da sua solidão.

 

(*) Cervantes deu a seguinte definição à sua própria obra: “orden desordenada (…) de manera que el arte, imitando à la Naturaleza, parece que allí la vence”


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