Monthly Archives: Junho 2010


“… Não é por cobardia que não há jovens escritoras. É por cansaço.”

 

Perguntaram à Maria do Rosário Pedreira a razão pela qual não há novas escritoras. Ela explicou, mais coisa, menos coisa, que as mulheres, mais do que os homens, se dedicam à leitura. Têm, por isso, padrões de exigência literária elevados que não se compadecem com escritos medianos. Talvez seja assim. Encontro, porém, razões mais simples para a falta de jovens escritoras. As jovens mulheres são mães. A maternidade, que é um consolo, uma satisfação, tem corpo de sanguessuga, é um bicho hematófago que se alimenta de nós, chupa-nos o sangue e o resto. Ao fim do dia, quando adormece, a maternidade deixa apenas uma carcaça cansada. É verdade que os jovens escritores também são pais. Mas ser mãe é tão diferente de ser pai. A propósito do lançamento do seu último livro, a Filomena Marona Beja, nova escritora velha, explicou isso mesmo. Começou a escrever velha depois de se livrar do maravilhoso fardo da maternidade. Só quando os filhos se fizeram à vida e lhe largaram as saias pode dedicar-se à escrita. Quando lhe li a entrevista sosseguei. Vivo na expectativa de que me aconteça o mesmo. Hei-de escrever quando for velha e livre! Imagino muitas histórias. A história da pensão imperial. A história da promessa. A história do taxista angustiado. A história dos prédios do bairro camarário pintados de fresco. A história da sandes de salsichão enfiada no bolso do presidente da câmara. A história da mulher que comia gelados. Outras. São pequenas histórias, esquissos sem corpo, que flutuam na minha cabeça como fantasmas. Sei que poderia escrevê-las com competência, o que, nos tempos que correm, já não é mau. Não as escrevo porque à noite, quando finalmente a noite se alonga e o silêncio trepa as paredes do quarto, não resisto à exaustão. Fecho o interruptor e adormeço. Não é por cobardia que não há jovens escritoras. É por cansaço.

Ana (de Amsterdam) Cássia Rebelo

 

PS: Aproveitem e disfrutem do resto do Blog. É das coisas boas que ainda se escrevem para aí, neste éter.


a vida nas árvores ao redor de mim

 

Têm o tamanho de pegas, essas sim mais comuns por aqui, mas são muito mais belos. Adoptaram os dois pinheiros da ala norte, por aí se constituindo numa comunidade já para além de uma dúzia de espécimes e vão-me cantando o dia com os seus assobios viçosos. Têm o corpo acobreado e as asas são de um fabuloso violeta, assim como a cauda, uma enorme e elegante cauda. 

Hoje de manhã recolhi quatro da piscina. Uma verdadeira tragédia. Alheadas, as sobreviventes continuam a (en)cantar nos seus volteios sedutores. Têm por destino ser belas e isso estará para além da presumível consternação. Conheço tanta gente assim … de asas violetas.

 

Adenda: http://www.avesdeportugal.info/cyacya.html (obrigado Nuno).

E confirmo o que lá se diz, espantam pela beleza …

… e azucrinam-me os ouvidos.


o padre-cientista: João Resina

 

O longínquo ano de 1981 testemunhou o meu orgulho por ter conseguido ingressar no Técnico – esse selecto baluarte académico da Engenharia – a que tão arduamente só alguns podiam aspirar pelos critérios de selecção de então. Esse mesmo ano da graça, seis meses mais tarde, escondia pelas galerias do austero edifício da alameda o meu estado terrificado, a minha profunda tristeza, o desânimo e um absoluto arrependimento por ter ali ido parar.

Por entre a aridez das disciplinas e a dificuldade premeditada das matérias (que dali só um quarto dos presentes alcançaria o almejado diploma, como ouvíamos com sobranceria ser anunciado pelos corredores da docência), uma cadeira se destacava nesta lide de equações algébricas e temerosas perspectivas de insucesso académico. As palestras de “História das Ciências” eram dadas no anfiteatro do pavilhão principal que se atulhava de tal maneira com os sôfregos estudantes que por vezes as portas tinham de ser mantidas abertas para que os mais retardados as pudessem escutar do lado de fora, no hall do edifício. Ninguém ia ali para tirar apontamentos mas apenas para ouvir discorrer … este homem.

Faleceu ontem. Perdeu-se um livre pensador, um extraordinário homem, capaz de integrar no mesmo espaço de pensamento as duas traduções do universo – as trazidas pela religião e pela ciência – e ainda assim lidar de forma encantadora e sublime com as contradições e os antagonismos entre estas. Isso também fazia dele um homem controverso e insubstituível. A ‘minha’ ciência voltou a tornar-se mais árida.


Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra

alegadamente extraído da carta enviada por Seattle, da tribo Suquamish, em 1855, ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce)

 

Amanhã celebra-se o “Dia Mundial do Ambiente”. Nesta moda que prolifera dos “dias de qualquer coisa”, de intuitos tão duvidosos, apenas lamento que este, tal como esta Terra que recorda, vá passar despercebido e banalizado nas pelas nossas consciências apressadas.


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