o padre-cientista: João Resina

 

O longínquo ano de 1981 testemunhou o meu orgulho por ter conseguido ingressar no Técnico – esse selecto baluarte académico da Engenharia – a que tão arduamente só alguns podiam aspirar pelos critérios de selecção de então. Esse mesmo ano da graça, seis meses mais tarde, escondia pelas galerias do austero edifício da alameda o meu estado terrificado, a minha profunda tristeza, o desânimo e um absoluto arrependimento por ter ali ido parar.

Por entre a aridez das disciplinas e a dificuldade premeditada das matérias (que dali só um quarto dos presentes alcançaria o almejado diploma, como ouvíamos com sobranceria ser anunciado pelos corredores da docência), uma cadeira se destacava nesta lide de equações algébricas e temerosas perspectivas de insucesso académico. As palestras de “História das Ciências” eram dadas no anfiteatro do pavilhão principal que se atulhava de tal maneira com os sôfregos estudantes que por vezes as portas tinham de ser mantidas abertas para que os mais retardados as pudessem escutar do lado de fora, no hall do edifício. Ninguém ia ali para tirar apontamentos mas apenas para ouvir discorrer … este homem.

Faleceu ontem. Perdeu-se um livre pensador, um extraordinário homem, capaz de integrar no mesmo espaço de pensamento as duas traduções do universo – as trazidas pela religião e pela ciência – e ainda assim lidar de forma encantadora e sublime com as contradições e os antagonismos entre estas. Isso também fazia dele um homem controverso e insubstituível. A ‘minha’ ciência voltou a tornar-se mais árida.

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5 responses to “o padre-cientista: João Resina


  • O fluir da informação a que hoje tão tranquilamente temos acesso não justifica a redundância de estar aqui a identificar a sua obra, quer como cientista, quer como religioso. Há no entanto uma nota que quero deixar apensa: João Resina fazia parte do grupo da Capela do Rato, no tempo do Marcelo Caetano. Em criança não presenciei nenhuma, mas a coragem e a frontalidade das suas homílias nesse período de então atravessou gerações.

    Só estranho que a comunicação social não faça agora eco disso quando propaga a sua morte trazendo apenas os seus méritos mais ‘institucionais’ como home da ciência e da igreja. Ou não tanto. A sua voz era incómoda então, naqueles tempos que corriam, como o continuou a ser sempre desde então, mesmo quando se sentia na obrigação de questionar a igreja. Vítima do ostracismo? certamente que sim.

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  • nuno

    Mas oh Zé, não sei se percebi:

    “Doutorado em Filosofia na Bélgica em 1969, esteve nas paróquias de Santa Isabel e S. Nicolau, e foi responsável da Capela do Rato, onde as homilias eram espiadas pela PIDE, polícia política do Estado Novo. No Campo Grande, em Lisboa, tornou-se responsável da catequese, onde deixou uma marca de criatividade.

    Muitas das homilias, que distribuía em folhas no final das missas depois de alguns amigos lhe terem pedido que as escrevesse, estão publicadas em dois volumes com o título A Palavra no Tempo. ”
    In Publico

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  • Tens razão, a própria notícia que linko traz a referência à sua passagem pela capela do rato, falha minha! tenho no entanto a noção de que ele era uma pessoa controversa no seio da igreja, e que a sua palavra poderia ter sido mais aproveitada do que na verdade o terá sido.

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  • bill

    Não há coincidências… mas sexta-feira (dia 4) ao fim da tarde falaste dele a propósito do pai B.

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  • Marco Oliveira

    Não me lembro dele no Técnico. Mas há pouco mais de um ano filmei uma conferência dele no Centro Nacional de Cultura.

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