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férreas vontades, fraquezas ferruginosas

Fim das férias. Toda a semana a fazer-me retornar para a vida real e nisso a suspender os olhos pela lista interminável de mails e de correio. Sopra ainda a brisa amena do verão e os níveis de abstracção são frequentemente interrompidos pelos enxames de sensações que querem urgentemente o meu corpo fora daqui. O suave conforto da pele ainda transportando os restos da mandriice do sol começa a desvanecer-se e os pés, desabituados e anafados pela liberdade que tiveram, gritam agora rabujices, agrilhoados nos sapatos. Se o espírito, esse que a esforço vou domesticando, se vai resignando a imergir nas rotinas de sempre, lento, é certo, mas obediente, já o corpo me foge ao controlo, arrepiando-se na perspectiva de se ver de novo encapsulado por mais um ano.

Mas folgo agora, intervalo-me, obrigo-me a dar tréguas a esta refrega de contradições que todos os dias me invade até que acabe por me despojar da mais ínfima réstia de férias que ainda trazia comigo e engenho o tédio para aí me pousar por instantes, nesse interregno. Poderia ter dado vazão às escritas de verão atilhadas em vocábulos ociosos e a fotografias mornas de fim de tardes, coisas de palavras e imagens que um dia me dariam gozo recordar aqui neste álbum, mas nem isso, que melhor que isso, para o pleno do ócio, é nada escrever, é nada ter escrito. Viajo apenas, coisa de apenas observar e clicar, clicar, que agora até isso já vive plasmado nos insubstituíveis ecrãs onde nos rendemos a também existir, ainda que em modo diáfano. E foi assim, no incontornável facebook – esse telemegafone que nos redesenha no éter à vista de toda a gente – que dou por mim a reviver o verão, navegando por álbum de fotos amigo. Lá estava eu e eles e tantos outros e em tão bons momentos. Tanto ar feliz e tanta coisa que me poderia ter inspirado para um pequeno texto a assinalar esses tempos, o tal retrato que os faria perdurar, aqui, neste retiro mais esconso e menos etéreo.

 

Mas não, tinha de encalhar naquela foto! Lá estava ele, escarranchado, o de quase sempre, mas agora de novo de cigarro na boca (?!), seduzindo-o, fazendo dele de novo presa. Uma figuração deplorável. Uma traição injectada nele e infligida a todos aqueles a quem se prestara a reclamar o exemplo de um exercício quase épico, um “até comigo é possível”, um caso projectivo para o vício do mundo inteiro e para as fraquezas do corpo e da vontade. Como é possível escrever algo que nos venha de dentro se nesse instante nos achamos uns imbecis? Como tentar explicar porque um pateta, depois de alcançado o olimpo, se dá ao luxo de aplicar de novo a mesma força absurda com que durante horas, dias, meses e depois anos se armou e arrastou de indómitas vontades para, agora, de lá fazer caminho inverso? E para que queria eu escrever isso se nada tem a ver com as memórias suaves das férias? E para que quereria eu deixar aqui lavrado preto no branco, aqui neste retocado e embelezado jardim do meu ego, esse retrato de um homem angustiado, lançando sorrisos hipócritas, de cigarro ferido na boca?

Havia tanto para recordar das férias!, não fosse aquela foto, não fosse eu, agora, assim, tão explícito, de novo. E dei comigo a pensar que o exílio dos dias comuns, esse de que me lamento no agora voltar, é um bom lugar para começar de novo, (mais uma vez, uma outra vez), a tortura de me infligir no que sendo capaz deixei de ser: um homem de vontades férreas, ou melhor, ferruginosas.