Monthly Archives: Outubro 2010

uma lição de culinária, (ou de como um blogue serve para tudo)

Chego hoje aqui para regar as plantas já murchas  e acabo por constatar que a expressão de busca que nos últimos tempos mais tem trazido leitores a este blogue é precisamente: “receitas de feijoada“. É a decadência! e a raiva também. E basta-me isso para de forma determinada, ainda que desanimada, garantir aos anónimos pretendentes a chefes de cozinha que nunca aqui desvendarei o segredo dessa receita, até porque, como já o devem ter constatado aqui, n’ “a melhor feijoada do mundo“, ele não está nos ingredientes,

… mas no homem que nos criou!

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6 anos …

… de rádio-amador, é muito tempo a emitir, muito cacarejo, muita entranha exposta, muito ruído e alvoroço que jaz agora calado entre linhas do calendário.

E contudo, não me arrependo nem envergonho. Foi dos hobbies que mais gozo me deu, enquanto a substância do escrever não se me acabou.


a ‘justa’ fúria da hipocrisia

Estou tão farto desta gente do protesto, esta geração da assobiadela em que nos transformámos, esta indigência de pensar que o mundo melhora sem mim, eu, tão marcial, ocupado com a imensa urgência de apontar o dedo aos outros, que como eu, mas por razões menos urgentes e tão mais censuráveis, se furtam ao trabalho. Que eu acuso-os e para isso pouco me sobro para o trabalho, já eles, que dizem que governam, pouco mais são que acusados, talvez  – se no meio deste meu ruído todo houver porventura alguma razão – até culpados.

Entretanto teclo ferozmente, aqui, ali, por todo este hiperespaço da internet, e agora grito e estrebucho, teclando, que dá menos trabalho, que para trabalho já me chega esse a que os outros agora deveriam estar entregar-se. E teclo acusações, clic clic, que a culpa está no governo, esses desavergonhados, que enquanto teclo não sou eu deles, nem eles de mim, os sacanas. Não me falem do trabalho que não faço agora, pois que agora não posso nem isso é importante. Não me atirem areia para os olhos que a mim não me enganam. Olhem os tantos que me aplaudem estas imprecações também eles como eu, não dos outros, gentes que como eu se tecla de inquietações e indignações, que a culpa está em quem nos governa, sim, no governo, não no trabalho, que com esse se pretende apenas inebriar-nos a consciência. É tempo de reclamar, clic clic, e enquanto isso sou importante demais para me entregar ao trabalho, que eles o façam, mesmo que mal, que cá estarei eu para os arguir, clic clic. Eu reclamo e vós aplaudis, somos muitos  e há-de haver razão nisso. Depois, depois aplaudirei eu o que tiverem para dizer deles, clic, clic, sim, que a nós ninguém engana! Trabalho? eles que resolvam primeiro os problemas que nos criaram, que eu não sou deles, sou dos nossos. Eles que vão trabalhar… malandros

Sabeis que mais? Estou farto de vós!, estou farto de nós!, estou farto de mim! E enquanto tudo isto não dói mais, e enquanto não contamino os meus filhos com esta cultura bastarda da indolência, partilho convosco este muito a propósito “poema temperamental”: (sugiro que se abriguem recatadamente na casa-de-banho e o leiam em voz alta; ele ganhará outra melodia e no fim sentir-se-ão melhor)

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Com certeza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!
Ó caralho!

Joaquim Pessoa


reeditando vontades perdidas

 

São 5h da manhã e continuo sem conseguir enterrar o dia. De cada vez que fecho os olhos algo repica dentro de mim e me impede de o deitar, a este dia já tão longo e estafado. Estou exausto e sei que daqui a pouco ele se levantará de novo, inquieto, com alfinetadas de luz por entre os estores, para voltar a levar-me com ele, mais uma vez, um dia mais. E todos os dias se repete esta liça nocturna, silenciosamente, sozinha no mundo, esta guerra em que o dia se irrompe da noite sonegando-me às interrupções do dormir e sem dar conforto a esta tamanha fadiga. E enquanto o dia não se faz dia lá sobramos nós, eu, pobre alma em deambulações pela casa e o bicho tenebroso que em mim se hospeda. Travamos esta guerra há quase dois meses, ininterruptamente.

Resignado, preparo um nescafé fraco e beberico com ele o resto do whisky que ficou no fundo de um copo. Faço tudo isto com uma mão apenas. Carrego-o comigo enquanto damos mais uma volta à casa na calada da noite, revisitando cada assoalhada com a atenção de uma primeira vez, colhendo e pousando depois, distraidamente, cada uma das peças que encontramos pelo caminho, matando o tempo e calando as vontades em gestos de sonambulismo. E não chega, nunca chega. Volto então a vestir uns calções, calço umas chinelas e saio para a rua. Uma, duas portas, que destranco, com uma mão apenas, que a outra mantem-se de punho fechado, guardando no toque a exaltação da insónia. Dobro a esquina, subo o beco e volto a descê-lo e depois retorno para dentro. Os mesmos movimentos a repetirem-se eternamente. Tudo recomeça agora uma outra vez. Sento-me na borda da cama. Ele continua lá, dentro de mim e espera que, tal como o sono que havia em mim, também eu desista. Há dois meses que espera. Abro finalmente a mão e dou duas voltas ao isqueiro que guardo na sua palma. Apago de novo as luzes e fico depois a brincar com a chama no escuro enquanto me deito a pensar que me habituei a trazer comigo um sono que não consigo curar.

Agora já não me apetece pensar e a chama já está débil. Tenho brincado muito com ela nestes últimos tempos. Mas agora já não quero pensar, nem no isqueiro sequer. Nem queria sentir nada, se me fosse dado esse intervalo, essa trégua, uns minutos breves onde me deixasse flutuar no sono sem nada sentir. Deixo-me cair para trás e fico de costas na cama. O tecto tem um rendilhado nos cantos, umas cornucópias de gesso em que nunca tinha reparado. Mas não deveria estar a tomar atenção a isso, não deveria sequer tomar atenção a nada. Já devia ter aprendido a tapar vagarosamente a consciência e enganar o dia e a noite naqueles breves momentos que seriam o suficiente. Abro a mão. Desagarrado,  o isqueiro cai. Deveria ser tão fácil como este gesto assim, largando-o, largando-me, simplesmente.

E lá fico, eu e a noite quase dia outra vez, e a mão aberta, sem nada, insuportavelmente vazia do desejo que durante 30 anos se habituou a segurar.

Há 65 dias.

                                                                                                     3 de Agosto de 2006

 

Ao meu amigo Zé que na sua courela mergulha agora nesta luta. E tem-te atento homem, pois é mais tarde, quando julgares ter o bicho por adormecido, que sub-repticiamente atacará a lascívia de SÓ um charuto após farto repasto que mal não fará. Tanto heroísmo não merece, como aconteceu comigo após 3 anos, ser traído pela lama bolorenta de uma vontade já esquecida.

(eu já aí vou ter contigo …)


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