a ‘justa’ fúria da hipocrisia

Estou tão farto desta gente do protesto, esta geração da assobiadela em que nos transformámos, esta indigência de pensar que o mundo melhora sem mim, eu, tão marcial, ocupado com a imensa urgência de apontar o dedo aos outros, que como eu, mas por razões menos urgentes e tão mais censuráveis, se furtam ao trabalho. Que eu acuso-os e para isso pouco me sobro para o trabalho, já eles, que dizem que governam, pouco mais são que acusados, talvez  – se no meio deste meu ruído todo houver porventura alguma razão – até culpados.

Entretanto teclo ferozmente, aqui, ali, por todo este hiperespaço da internet, e agora grito e estrebucho, teclando, que dá menos trabalho, que para trabalho já me chega esse a que os outros agora deveriam estar entregar-se. E teclo acusações, clic clic, que a culpa está no governo, esses desavergonhados, que enquanto teclo não sou eu deles, nem eles de mim, os sacanas. Não me falem do trabalho que não faço agora, pois que agora não posso nem isso é importante. Não me atirem areia para os olhos que a mim não me enganam. Olhem os tantos que me aplaudem estas imprecações também eles como eu, não dos outros, gentes que como eu se tecla de inquietações e indignações, que a culpa está em quem nos governa, sim, no governo, não no trabalho, que com esse se pretende apenas inebriar-nos a consciência. É tempo de reclamar, clic clic, e enquanto isso sou importante demais para me entregar ao trabalho, que eles o façam, mesmo que mal, que cá estarei eu para os arguir, clic clic. Eu reclamo e vós aplaudis, somos muitos  e há-de haver razão nisso. Depois, depois aplaudirei eu o que tiverem para dizer deles, clic, clic, sim, que a nós ninguém engana! Trabalho? eles que resolvam primeiro os problemas que nos criaram, que eu não sou deles, sou dos nossos. Eles que vão trabalhar… malandros

Sabeis que mais? Estou farto de vós!, estou farto de nós!, estou farto de mim! E enquanto tudo isto não dói mais, e enquanto não contamino os meus filhos com esta cultura bastarda da indolência, partilho convosco este muito a propósito “poema temperamental”: (sugiro que se abriguem recatadamente na casa-de-banho e o leiam em voz alta; ele ganhará outra melodia e no fim sentir-se-ão melhor)

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Com certeza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!
Ó caralho!

Joaquim Pessoa

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