Monthly Archives: Novembro 2010

a lentidão salomónica

Esta manhã estive numa Câmara Municipal interpondo as minhas alegações para um processo em que, por razões que não importa aqui evocar, pedia apenas que me concedessem um prazo diminuto antes de ser obrigado a fazer uma pequena demolição.

Já quase ao fim de uma hora de reunião com o sisudo Engenheiro e depois de lhe deixar em mão o meu rol de argumentações de três extensas páginas acompanhadas ainda por vários comprovativos em anexo, vai este dando o nosso encontro por concluído, fazendo até intuir que por ele recolheria de alguma compreensão para com o delicado assunto mas que este pouco importaria – e nisto assim rematando – pois que tudo agora penderia do parecer superior. Fiquei preocupado. Em sede de despedida e já quase conformado com o insucesso da minha investida interrogo-o sobre quando devo então aguardar o despacho.

Juro que lhe vejo entreabrir um (ainda que muito ténue e composto) sorriso nos cantos dos lábios, quando ele me responde: “- Bom, estas coisas … humm … nunca para menos de dois anos”. E sorrio-me eu depois, mais declarado e aliviado. E ele soltando-se agora também, mais franco, até quase humano, como que comigo a admitir que afinal o labirinto kafkiano pode por vezes abrigar, ainda que de forma enviesada, alguma justeza salomónica.

E eu até então preocupado com o deferimento das minhas justas alegações quando, perante tanta ‘proficiência’, bastaria ter interposto um papel em branco.

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o homem que arranjava o mundo

Não, os textos não desgastam as memórias. Bem pelo contrário, trazer o passado às palavras reaviva-o. E se já contei esta história uma vez, conto-a agora em segunda forma, pois que nisso me trago ao prazer de me fazer mais próximo dela. Escrever, se é bom, basta-se por isso, porque transporta nas palavras a magia de fazer acontecer outra vez, o que é particularmente compensador para quem como eu padece de fraca memória e tanto tem para recordar dos actos daqueles que tanto o cunharam.

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Naquela pequena moradia, além dos progenitores, habitavam também um irrequieto bando de 6 crianças, uma dúzia de periquitos que não serviam para coisa nenhuma e um cão. O cão era já um segundo afecto, uma espécie de lenitivo para a criançada depois da morte trágica do primeiro, esse um enorme e altivo pastor alemão. Fixemo-nos no cão então. Quando este chegara, pouco maior que um novelo de lã, fora anunciado como um raçado ainda próximo de perdigueiro e como todos os cachorrinhos ganhou facilmente a afeição daquela numerosa família com as suas trapalhonas correrias pelos serões adentro.

Depois os meses passaram, o pequeno animal nunca chegou efectivamente a crescer e o projecto de um orgulhoso cão de caça rapidamente se ficou pelo meia altura de um rafeiro. E se dúvidas houvessem, apesar do seu porte atarracado de pernas curtas e da inconfundível matreirice dos olhos negros que só a esperteza dos rafeiros ostenta, se dúvidas houvessem, dizia-se, sobre a sua falsificada origem, o seu comportamento boémio rapidamente trouxe à evidência dos mais cépticos daquela casa tratar-se de um cão do mundo, sem donos, que dali apenas pretendia no final do dia o sossego da casota e o repasto da refeição que ainda assim a família, abnegadamente, lhe dispensava de hospedagem.

Era um bicho arisco e inteligente como só os rafeiros sabem ser e que também nos afectos se sabia dar, apenas o suficiente para colher a complacência dos seus donos, na dose bastante para ainda o tomarem por seu sem que isso molestasse a sua independência. No resto, era um procriador do bairro, o terror das cadelas fifis e naturalmente um mutilado da ira de outras gentes e cães, compreensivelmente menos condescendentes para com o seu génio marialva, que assim o iam galardoando com falhas esquartejadas nas orelhas, peladas, dentes perdidos, cesuras nas patas, enfim, uma miríade de cicatrizes que ainda acentuavam mais o seu ar rufia e vulgar.

Aproximemos contudo a história vadia do bicho ao dia em que ele quase soçobrou numa das suas campanhas pelo bairro. Nessa bela tarde o pobre animal apareceu por entre latidos pungentes com o maxilar inferior completamente fracturado, de tal forma que a mandíbula lhe balouçava na vertical, praticamente só presa pela pele! Calcule-se então o reboliço, o horror e o dó que foi naquela casa até que o pai chegasse.

Acalmadas as hostes com a chegada do progenitor, alguns dos miúdos, os mais velhos, prestaram-se então a acompanhar o homem que assim arriscara levar o cão à clínica veterinária lá do bairro. O vaticínio, já que nem de diagnóstico era preciso falar, era óbvio e terrível: tal mazela seria em princípio fatal, que poucas condições, por razões óbvias, existiriam para a sua sobrevivência. Mas um rol de miúdos desalentados, a forte argumentação de um pai e, reconheça-se também, a genica juvenil e a dedicação do veterinário, acabaram por fazer fundear uma hipótese que ele próprio explicou ter sucesso improvável, mas que ainda assim se fazia disposto a ensaiar, ainda que coisa protótipa, quase ali pensada, sem certeza médica e científica. Constou então esta de fazer ligar as duas partes da maxila do animal por um forte arame de aço, como se este, sucessivamente tricotado, fosse assim cosendo ziguezagueante os ossos das duas partes. Os pespontos finais eram dados enrodilhando com duas voltas as pontas do arame nos molares de cada lado, quais fixes, que assim tensavam aquele extraordinário trabalho de artífice. O resultado final era um horror, com o pobre animal entrapado num cachecol tingido de sangue, um funil em redor da cabeça mas que ainda assim não ocultava os pedaços de gengiva de onde sobressaía o aço da invulgar linha que lhe cosera a queixada. Mas o certo é que saiu de lá pelo seu pé, com poucas recomendações quanto à dieta e muitas saudações dos membros da família.

Mas já se sabe que bicho como aquele dificilmente se manteria quieto e poucos dias depois, uma já costumeira escapadela da coleira que o mantinha cativo no quintal acabou por o trazer de volta rigorosamente no mesmo estado de padecimento. Para lá caminharam o pai e o cão de novo, ao encontro do até então esperançado e imaginoso veterinário. E de lá voltaram, com o mesmo entrapamento e cosimento da vez anterior, mas acompanhados de um aviso marcial que com a delicadeza possível o pai fez anunciar aos miúdos: se mais alguma vez tal voltasse a acontecer o animal teria de ser abatido, que nem os ossos nem já as carnes que inevitavelmente gangrenariam, a tanto poderiam resistir.

Pouco tempo depois, quando o pai chegou no final do dia a casa, a miudagem acolhia-o de olhos lacrimosos, antecipando o destino que, de certo, já lhes tinha sido dado saber sobre o cão. Tentava em vão o homem acudir-lhes à tristeza, explicando-lhes o fado do destino, que agora o do cão e que a vida era assim mesmo, mas em vão.

Quando se acercou de novo das traseiras do quintal onde o cão jazia em clara tortura de dor, seguia-o o séquito de filhos, pedindo-lhe o impossível. Zangava-se então com eles, que pois nada mais podia fazer, mas nisto já tirando o casaco e que eles deveriam perceber que todas as chances haviam sido dadas ao pobre animal e agora já quase arrancando a gravata com a fúria da impotência que sentia, e que logo haveriam de arranjar outro. Mas os miúdos continuavam a fitá-lo de olhos incrédulos. Então, subitamente, o homem lançou-se na escuridão de uma arrecadação, ali mesmo, nas traseiras do quintal, para de lá sair pouco depois com uma ferramenta em cada mão. Os filhos haviam-se habituado a ver nele alguém capaz de arranjar tudo e por isso, quando o viram com dois utensílios nas mãos nenhuma interrogação se lhes levantou, pois que mesmo que não compreendessem os seus intentos todos partilhavam a certeza de que, se algo pudesse naquele seu agora mundo tristonho ser remediado, seria agora, pelas mãos daquele homem, que isso aconteceria.

O que se sucedeu a seguir conto-o agora como se visto pelos olhos de um dos miúdos, que seja este o que se empoleirava por cima do canteiro, o segundo dos seis. O homem aproximou-se então do cão, suavemente, ainda que hesitante e acalmou-o com duas festas sobre o pêlo que foram retribuídas com um olhar dolorido e carente pelo pobre canino. Depois, sem que ninguém o previsse, num salto rápido sentou-se sobre o dorso do cão, com uma perna de cada lado de forma a que o seu próprio peso imobilizasse o animal no chão. Nas mãos vibraram-lhe então dois alicates, para espanto de toda aquela miudagem ali presente. Os minutos que se seguiram não têm narração possível. Entre latidos, ganidos e rugidos que ecoaram pela rua inteira e os estertores compulsivos do pobre animal que o dono contrariava com o seu peso, envolveram-se os dois num estranho reboliço, até que o cão se foi amansando nesse cada vez mais ir ficando, por cansaço ou confiança, enquanto os braços do homem lhe continuavam a dançar à volta da cabeça com movimentos persistentes e seguros.

Esta estranha dança durou até ao cair da tarde, depois tudo cessou. O homem lançara primeiro os alicates para longe como para mostrar ao animal que nada mais lhe queria cometer, depois levantou-se, também ele exausto, fixando agora o cão que desfalecido se deixara ficar no chão, com a queixada aparentemente recomposta, os ossos ajeitados de novo, alguns dentes endireitados. Quando entrou em casa, para se lavar, passou pela hoste de filhos como se nada ali se tivesse passado, nem uma referência sequer e a única coisa que lhe ouviram era a manda de ir para a mesa que a janta já estava atrasada.

Também os miúdos não sentiram ímpeto de dizer mais nada sobre o dramático episódio, como se, subitamente, mas dentro do que previam, a vida tivesse voltado a ficar arranjada e o jantar acabou por se cumprir entre os oito como de costume, por entre a algazarra e o vozeiral das coisas contadas do dia de cada um. Fechava-se assim mais um outro dia, com a tranquilidade de sempre, numa espécie de segurança quase cósmica que lhes fazia sentir que tudo poderia acontecer sempre mais uma vez porque afinal,  sentavam-se todos os dias  à beira do homem que sempre lhes consertara o mundo.

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O cão viveu mais uma meia dúzia de anos!             (e que disso não duvide quem aqui se leva a narrar, ou quem aqui o venha ler, pois andam por aí seis pessoas, naquele tempo ainda crianças, que ainda hoje o irão confirmar).


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