a lentidão salomónica

Esta manhã estive numa Câmara Municipal interpondo as minhas alegações para um processo em que, por razões que não importa aqui evocar, pedia apenas que me concedessem um prazo diminuto antes de ser obrigado a fazer uma pequena demolição.

Já quase ao fim de uma hora de reunião com o sisudo Engenheiro e depois de lhe deixar em mão o meu rol de argumentações de três extensas páginas acompanhadas ainda por vários comprovativos em anexo, vai este dando o nosso encontro por concluído, fazendo até intuir que por ele recolheria de alguma compreensão para com o delicado assunto mas que este pouco importaria – e nisto assim rematando – pois que tudo agora penderia do parecer superior. Fiquei preocupado. Em sede de despedida e já quase conformado com o insucesso da minha investida interrogo-o sobre quando devo então aguardar o despacho.

Juro que lhe vejo entreabrir um (ainda que muito ténue e composto) sorriso nos cantos dos lábios, quando ele me responde: “- Bom, estas coisas … humm … nunca para menos de dois anos”. E sorrio-me eu depois, mais declarado e aliviado. E ele soltando-se agora também, mais franco, até quase humano, como que comigo a admitir que afinal o labirinto kafkiano pode por vezes abrigar, ainda que de forma enviesada, alguma justeza salomónica.

E eu até então preocupado com o deferimento das minhas justas alegações quando, perante tanta ‘proficiência’, bastaria ter interposto um papel em branco.

Anúncios

4 responses to “a lentidão salomónica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: