Monthly Archives: Dezembro 2010

do tempo em que se sorria por entre vírgulas

” Antigamente as pessoas eram mais demoradas. Diziam as palavras sílaba a sílaba, sorriam com vírgulas, mostravam nos dentes um ponto de interrogação à laia de uma flor. Quer isto dizer que não faziam uma pergunta exigindo de imediato uma resposta. Esperavam esbeltas no tempo, os olhos isentos de qualquer desafio( …)

Hoje, não. Hoje não nos sabemos demorar (…) nas margens desta ou daquela situação (…) Estamos em fuga, ultrapassamos todos os possíveis encontros – e cada vez, embora de muitas coisas acompanhados, nos sentimos mais sós uns dos outros (…)

Antigamente, pois as pessoas eram menos súbitas (…) e porque eram a noite e o dia, e tinham dentro de si uma longa tarde, lentas se davam, lentas sorriam, e lentas (uma a uma) entardeciam. “

Pedro Alvim
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a chuva das palavras aqui em 2010


um conto (de natal) sem título

O jovem vai absorto na paisagem urbana que corre na janela. De cada vez que é alcançada uma nova paragem o chiar dos travões e o impulso da desaceleração transportam-no de volta para o interior do autocarro. A porta abre-se, a humidade da chuva é trazida nas roupas dos passageiros e um cheiro acre a mofo é ventado com o arrastar com que cada um que vai procurando lugar para se acomodar. Depois a breve azáfama cessa, os corpos equilibram-se entre si e o autocarro arranca de novo com os seus viajantes mergulhados em abstracções casuais, outros talvez mastigando pesares do trabalho ou tão só na inércia cansada de se deixarem ir conduzidos. Ele embrenha-se de novo no lado de fora, onde a velocidade das empenas dá agora lugar a um rio longilíneo que o vai acompanhando no trotar da viatura. Desta vez nem dera por o autocarro se ter carregado de gente. Uma senhora de alguma idade, talvez podendo ser mais que sua mãe, cambaleia entre cada gesto do veículo, para a frente, para trás, o seu corpo frágil chocalhando de encontro aos outros. Agora atento, o rapaz de imediato se levanta e no seu jeito tímido tenta fazer-se compreender desse seu gesto. As suas mãos insistem, indicando caminho para o conforto que lhe oferece, mas a senhora leva os olhos no chão. Súbito, um matulão esgueira-se por entre os dois e toma-lhe o assento. Ele ainda tenta protestar, depois sustém-se. Olha em redor. Protestar do quê. A senhora, agora na sua frente, dorida, continua de olhos no chão. Tantos olhos no chão. Protestar do quê se nenhum dos dois terá sequer percebido a sua intenção.

O pai, ao fim do dia, também deixará que os seus olhos lambam o chão, refugiando-se nele de uma resposta que não lhe saberá dar. Mas pai, nem a senhora compreendeu que lhe estava a dar lugar, nem o senhor o quis entender. Mas pai, então por que me levantei? Mas pai. E o pai varrendo o fundo de si, repescando a razão das coisas que lhe haviam ensinado e que agora mantinha querer ensinar ao seu filho. E lá fora, o autocarro, relinchando de gente. Tanta gente e tão sozinha. E tantos olhos no chão.


de un poema español que habla de unas manos eróticas y de su cuerpo

pero, las manos son indispensables

para la verdad del cuerpo .

sin ellas tus caderas no hablam,

tus pechos no sorien,

tu sexo no se me quedará gritando placeres


do que continuo sem (saber) escrever

 

Por vezes escrevo para me deixar conduzir às memórias. Uma viagem pelas coisas lá deixadas pelos outros e do eu que fui com eles. E quando escrevo assim chego até a apoderar-me de alguns gestos seus – a forma das mãos numa conversa mais arrebatada, um tique no andar apressado, uma fugaz hesitação do rosto antes da confidência – e aos poucos, nessas pequenas coisas, vou-os reencontrando e nisso como que os reconstruindo em fresco. E porque continuo a escrever vai-me chegando mais deles e com o que me chega lanço-me a recompor fragmentos das nossas conversas e com estas, interligando-as, vou reabitando alguns dos bons momentos que passámos juntos. Escrevo(-os) por isto, porque consigo construir a ilusão de os visitar.

Hoje apetecia-me escrever sobre ele. Mas não o vou tentar. Aliás, faltou sempre o texto que eu poderia ter escrito sobre ele e acho que o vou deixar sempre por escrever – há em mim um diálogo interrompido que não se troca por saudades e que não ouso reinventar, que trazê-lo para mais perto era distorcê-lo, como se, completando-o, acabasse assim por o perder. Quero-o nas memórias que me sobrevivem incompletas, tal como nos deixámos, a que nunca ousarei tocar com medo de lhes mudar a forma. Há coisas que vivem apenas na dimensão das coisas que se sentem. Nos lugares que não se escrevem. Na minha infância, lá onde viveremos sempre pos dois e a tão grande família que criou e agora comigo e nos meus filhos e no que eu quero ser com eles e, assim, no meu futuro e no futuro deles. Em todos estes lugares o sinto presente, nestes lugares que não são só meus e de tantos outros para além de mim. Há homens que têm de ser de todos e que não se escrevem apenas com uma caneta.

Hoje apetecia-me escrever sobre ele, mas continuo sem o saber fazer. E acho que não o quereria saber.


dislates de um homem desanimado

 

Os calos na mão provam a obra do artífice? Não, apenas confirmam o ofício.

O esforço por si mesmo traz legitimidade ao propósito? Também não, fará apenas prova.

O que diferencia então a vontade da intenção? Provavelmente, a hipótese de se falhar .

Mas nos crentes isso esconde-se na idiota obstinação de o negar.

Eu sou crente. A minha mentira é maior. E sofro mais por isso.

Hoje vou emborrachar-me. Posso.


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