um conto (de natal) sem título

O jovem vai absorto na paisagem urbana que corre na janela. De cada vez que é alcançada uma nova paragem o chiar dos travões e o impulso da desaceleração transportam-no de volta para o interior do autocarro. A porta abre-se, a humidade da chuva é trazida nas roupas dos passageiros e um cheiro acre a mofo é ventado com o arrastar com que cada um que vai procurando lugar para se acomodar. Depois a breve azáfama cessa, os corpos equilibram-se entre si e o autocarro arranca de novo com os seus viajantes mergulhados em abstracções casuais, outros talvez mastigando pesares do trabalho ou tão só na inércia cansada de se deixarem ir conduzidos. Ele embrenha-se de novo no lado de fora, onde a velocidade das empenas dá agora lugar a um rio longilíneo que o vai acompanhando no trotar da viatura. Desta vez nem dera por o autocarro se ter carregado de gente. Uma senhora de alguma idade, talvez podendo ser mais que sua mãe, cambaleia entre cada gesto do veículo, para a frente, para trás, o seu corpo frágil chocalhando de encontro aos outros. Agora atento, o rapaz de imediato se levanta e no seu jeito tímido tenta fazer-se compreender desse seu gesto. As suas mãos insistem, indicando caminho para o conforto que lhe oferece, mas a senhora leva os olhos no chão. Súbito, um matulão esgueira-se por entre os dois e toma-lhe o assento. Ele ainda tenta protestar, depois sustém-se. Olha em redor. Protestar do quê. A senhora, agora na sua frente, dorida, continua de olhos no chão. Tantos olhos no chão. Protestar do quê se nenhum dos dois terá sequer percebido a sua intenção.

O pai, ao fim do dia, também deixará que os seus olhos lambam o chão, refugiando-se nele de uma resposta que não lhe saberá dar. Mas pai, nem a senhora compreendeu que lhe estava a dar lugar, nem o senhor o quis entender. Mas pai, então por que me levantei? Mas pai. E o pai varrendo o fundo de si, repescando a razão das coisas que lhe haviam ensinado e que agora mantinha querer ensinar ao seu filho. E lá fora, o autocarro, relinchando de gente. Tanta gente e tão sozinha. E tantos olhos no chão.

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