uma nódoa indelével sobre a toalha de brocados

 

Primeiro deixou de haver sexo, depois amor, ou talvez tivesse sido o contrário – passara tanto tempo que ele já nem disso tinha percepção. Mas ficou a amizade, uma amizade franca, mantida dos tempos de ainda antes da paixão.

Depois, sem que dessem por isso, também esse afecto se foi desvanecendo e foram mirrando os momentos repartidos e o interesse das conversas casuais. Acabou por ficar apenas um trilho que iam riscando em conjunto pelos dias fora, um rasto único, mas sem eles. Ainda assim mantinha-se ressuscitada entre eles uma sólida base de respeito. Compreendiam-se, aceitavam-se e toleravam-se nesse caminho que insistiam seguir juntos.

Até que um dia o descuido de um levou a que o café se entornasse sobre a toalha nova de brocados. Cresceu a fúria, súbita e imprevisível e a agressividade com que se reclamaram de razões foi tal que acabaram por deixar de se falar. No entanto, ao contrário de outras vezes e apesar da insignificância do incidente, este episódio não se saldou por mero arrufo. A nódoa na toalha – talvez por o café ter açúcar, disseram-lhe mais tarde – nunca mais sairia e poucas semanas depois, ainda com a empatia do silêncio cultivado de tantos anos, despediram-se simplesmente, para sempre.

E a nódoa por lá ficou, caída no melhor pano que tantos anos levara a costurar.

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