a têmpera (*)

Chega de mansinho e são tantas as vezes que já nem dou por ele. Antes disso levanto-me, volto a sentar-me, levanto-me de novo, agarro as chaves para sair para lado nenhum e retrocedo e volto a sentar-me, e nem assim, com este desassossego de vontades, o consigo espantar. Pouco depois, inestanca-velmente, a calma faz-se alarve. Num ápice vejo-me desguarnecido da minha gente que se dispersa pelas maiores distâncias que conseguem interpor de mim, que depois – irão constatar isso mesmo por entre olhares cúmplices entre si – vêm os vitupérios, que ora bolas, voltou, as veias inchadas de rebentar fúrias, a pele tingida de vermelho enrouquecido. E explodem estrídulos, e voam desrazões com que persigo desenfreado cada justificação que se me atrevam a dar, que não é de palavras que o mundo agora se constrói, é de sangue, é de frémitos, é da possessão irrefreável da cólera.

Depois tudo passa. Aos poucos o pó do silêncio começa a assentar e eles percebem que já podem voltar. Um após outro regressam às suas lides, que por ali se faz o jantar, aqui vê-se o fim de um programa juvenil e lá na sala de jantar volta a abrir-se o livro de estudo que havia caído no chão. Ninguém se preocupa em levantar uma interrogação, nem mesmo espreguiçar um comentário. Tudo volta ao que sempre foi, como se nunca tivesse acontecido. Na sala, junto à lareira, volta a recostar-se este meu corpo agora anémico, procurando aconchego em gestos lentos e escorregados, cansado num temperamento ressacado. Assim há-de permanecer, calmo, indolente, mais tarde até jovial.

Dias e dias passarão por ele, sossegando as carnes e amolecendo o espírito e a família seguirá a ordem dos tempos com normalidade, usando desta trégua até ao último minuto. Esse que depois virá, outra vez, sempre como da última vez, súbito e eu voltando a ser possuído dessa verve atroz e a vestir aquela pele traiçoeira que ainda agora se via vazada de tumulto. E morro eu assim tantas vezes nos meus afectos e tantas são, ainda assim, as vezes em que eles me sobrevivem, de novo, sempre mais uma vez, uma vez mais.

(*) Têmpera – Processo de aquecimento até à temperatura de austenização , seguido de um resfriamento brusco, normalmente em água.

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