Monthly Archives: Fevereiro 2011

celestino

Era um burro velho e manso, com umas enormes pestanas, que algum de nós se lembrou de baptizar de Celestino. Desde o dia em que o encontrámos passou a fazer parte das nossas tardes, talvez durante umas duas semanas, não mais. Mas duas semanas, naquela altura, naquela idade, naquele verão, era imenso tempo.

Um dia, no balanço que normalmente se fazia ao jantar lá em casa, acabei por referir que “estivemos a passear com um burro”, meio a medo de que disso me viessem a proibir, meio excitado por me atrever a contá-lo. Mas eles sorriram, achando graça a tanta imaginação. Tornou-se assim um lugar comum ao jantar, eles perguntando sobre “e o burro, hoje” e eu desfiando os últimos episódios, e depois entreolhando-se e sorrindo. E lá fui desembrulhando a história, todos os dias um pouco. Confiava-lhes que o tínhamos encontrado num baldio e identificava o lugar com rigor, ali perto de casa, sítio comum num bairro em construção. E todos os dias eles ficavam a saber um pouco mais do burro. Sabiam que se chamava Celestino e normalmente era já assim que me interrogavam no inicio da conversa, “então e o Celestino, está bem? ”. E desvolvia-lhes um pouco mais daquela história, ouvida atentamente quando lhes contava como todos os dias o íamos buscar a uma estaca, num descampado de chelas, (onde anos mais tarde se montou a escola do 12º ano), e como ele já nos tinha ganho confiança, seguindo-nos, já nada renitente como da primeira vez. E perguntavam-me se ninguém achava estranho, andar assim com um burro pela cidade. Eu não lhes percebia a estranheza mas sempre lhes ia confidenciando que por acaso naquele dia tivéramos de fugir a um polícia que nos chamava ao longe, e de como tínhamos conseguido esconder o Celestino por trás do prédio da drogaria. E lá iam escutando tudo com algum encanto, deliciando-se nos pormenores, no nexo que todas as descrições faziam, naquela história de um burro com um bando de miúdos numa cidade que todos os dias se prolongava um pouco mais. “E que come ele” perguntavam, sorrindo-se entre si. Aí interrogava-me também, pois que nós pouco lhe dávamos, mas que com certeza o dono, que haveria de haver dono, o homem que o tinha preso lá na estaca, no baldio, havia de tratar dele, quando nós por lá o deixávamos ao fim da tarde. Por vezes a minha mãe achava-nos algum exagero já, “que também não é preciso andar com o frasco de mercurocromo atrás, que podem bem brincar sem essas coisas”. Eu lá explicava que era para curar uma chaga que o Celestino tinha por baixo da perna esquerda e acabava por condescender, ainda que com com alguns avisos de cuidados.

Naquele verão, todas as tardes a seguir à escola lá íamos buscar o Celestino e com ele passávamos aquelas horas que se estendiam até ao lanche. Ele seguia-nos, já naturalmente, dando as mesmas voltas, quedando-se quando nós nos sentávamos em alguma escada, seguindo-nos as brincadeiras com a cabeça, e por ali ficava no ócio connosco, com aquele olhar meigo, tendo-nos como companheiros. Depois vinha o lanche, outras obrigações, e lá o íamos devolver de novo à estaca que marcava o seu território circular, renitentes, as saudades antecpiando-se, algo até inquietos pelo dia seguinte.

Uma noite viram-me tristonho e já na sobremesa questionaram-me,  “Foi o Celestino dizia-lhes, já lá não está. Tenho medo que tenha morrido”. E eles entreolharam-se, inquietos, sabendo-me magoado: “deixa estar, olha porque não passam a brincar com leões, ou veados, hás-de ver que hão-de encontrar outro bicho”. Nunca mais voltámos a ver o Celestino, aquele burro velho e meigo e as conversas ao serão acabaram por deixar de o trazer e de perguntar por ele.

Ainda hoje me lembro dos seus olhos tristonhos, aquelas pestanas enormes, a mansidão com que matava as horas da tarde connosco. E ouvia os meus pais contaram aos amigos, aos meus tios, da imaginação com que eu durante dias a fio, trouxe o Celestino para as conversas do jantar. Nunca os contradisse, nem mesmo em adulto, pois se a realidade de uma criança é também ela o cultivo da sua fantasia, que importância haverá de nisso entender a verdade.

Hoje, quando por lá passo, já não há baldio nenhum, nem um bando de miúdos com um burro. Há apenas pressa … e o Celestino, quase que piscando o olho de lá do longe da minha infância.

post originalmente colocado (em 14 dez.2007), lá no bairro.

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o homem (s)em si

Um para aqui, outra para ali, aquele para acolá e eis que inesperadamente me encontro sozinho numa manhã de fim-de-semana. Percebo pela estranheza com que o sinto que não é algo que seja frequente. Quase como se de súbito tivesse aterrado numa sala de espera tendo um estranho por companhia com quem me atrapalho a procurar conversa. Apercebo-me então que algures perdi os hábitos de estar sozinho. O que devia ser natural torna-se um momento inóspito. Sinto-me desajeitado, como se convocar-me para aqui estar neste momento fosse quase uma intenção artificial. E aflijo-me.

Saber estar sozinho é a qualidade com que nos habitamos, esse território só nosso que nos devia ser impedido desbaratar. E é além do mais uma reserva básica de sobrevivência que devíamos saber conservar.


há coisas que já estão escritas

Aqui o mar. E lá, para onde quero ir. E mar, também, enquanto vou. Que se folgue nos portos quando o mar é longo, mas que cada um sirva apenas a pausa do partir. Devia ser assim a vida, sem tanto ficar, que estes portos onde nos deixámos ficar, quais marinheiros apeados, atracados, não foram feitos para isso, que ali, aqui, era para chegar e partir. E se for preciso que nos mintamos alarvemente, que fique a fiança de lá um dia voltarmos, talvez até por lá acabar, que se lavre tal promessa em cada ancoradouro, mas agora partir, assim, sem ter de ser mais nada, nem ir nem ficar, sem ser verdade ou mentira, apenas caminho de abrir no mar.

… apenas não estão datadas.


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