Monthly Archives: Março 2011

quando puderes

Se não podes fazer da vida o que tu queres,
tenta ao menos isto,
quando puderes:
não a disperses em mundanas cortesias,
em vã conversa, fúteis correrias.
 
Não a tornes banal à força de exibida,
e de mostrada muito em toda a parte
e a muita gente, no vácuo dia-a-dia que é o deles
—até que seja em ti uma visita incómoda.

[1913] C.P.Cavafy _ trad. Jorge de Sena

 

Há tanta coisa já escrita por (para)  nós, mesmo que ainda não o saibamos e mesmo que o tenha sido pelas canetas dos outros, mesmo que estes habitando em tão longínquos lugares do mundo e mesmo que isso tenha sido grafado em tempos tão distintos desta película que hoje nos abraça com a realidade do presente. A vida, afinal, é-nos a todos tão parecida.

Esta foi descoberta num mural do facebook de amigo olivalense


a santa decapitada

Conta-se como história vivida e confirmada, mas logo se vê pela efabulação do incidente de onde a santa surge que, a ser verídica, já traz condimento lendário apenso pelas indetermináveis repetições que a propalaram.

Mas conta então que terá, certa noite, a santa dado à praia, ali para os lados do Alvor, terra esta que qualquer algarvio avisado sabe ser fértil de episódios risíveis e rocambolescos. Qual Iemanjá, logo a santa náufraga foi acolhida com fervor por aquelas gentes e assim piedosamente depositada na capela local.

Porém, talvez um capelão, certamente com dotes geómetras, terá descoberto um dia que a divina estatueta, se aquartelada em cima de um andor, jamais galgaria a porta da capela que, apesar de alta, não se alçava para além da sua majestosa altura.

Mas gente do mar não se amofina à primeira contrariedade e assim logo foi ponderada a solução. Decapitar-se a santa. Foi pois serrado, com a delicadeza e a reverência possível, o seu esbelto pescoço, tendo-se depois entregue a mutilada santa nas mãos de algum ferreiro cirurgião, para que este lhe aplicasse as devidas ferragens.

Na primeira procissão que a Santa encabeçou, as hostes católicas reuniram-se em grande número no adro da igreja, certamente conduzidas pela devoção que se lhes reconhecerá, mas também levemente espicaçadas pela curiosidade de saber o que à Santa teria sido cometido para resolver tão intrincado e delicado imbróglio.

Eis então que avança o cortejo, ainda embaciado pela penumbra do interior da igreja. As manobras que se seguiram e que aqui se retratam foram assistidas com ruidoso júbilo e profunda admiração pelos fiéis que ali aguardavam. O pescoço da pobre imagem era então rodado nos gonzos e a cabeça tombava-lhe para trás, inerte, assim se fazendo passar pela ombreira da porta a santa rebaixada, com a cachola às costas, para logo depois, já a céu aberto, alguém usando a ponta do pau de estandarte com a discrição e solenidade recomendada, ajustar de novo a cabeça à santa decapitada, rodando-a no ronco das dobradiças até esta se encaixar com estrondo no busto aplainado.

E daí em diante era sempre vê-la, à nossa senhora naufragada e degolada, nos dias das festividades religiosas, encabeçar o cortejo do alto do seu palanquim, tão orgulhosamente carregada pelos seus abnegados e imaginosos sequazes, sob o júbilo das gentes do Alvor.


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