a santa decapitada

Conta-se como história vivida e confirmada, mas logo se vê pela efabulação do incidente de onde a santa surge que, a ser verídica, já traz condimento lendário apenso pelas indetermináveis repetições que a propalaram.

Mas conta então que terá, certa noite, a santa dado à praia, ali para os lados do Alvor, terra esta que qualquer algarvio avisado sabe ser fértil de episódios risíveis e rocambolescos. Qual Iemanjá, logo a santa náufraga foi acolhida com fervor por aquelas gentes e assim piedosamente depositada na capela local.

Porém, talvez um capelão, certamente com dotes geómetras, terá descoberto um dia que a divina estatueta, se aquartelada em cima de um andor, jamais galgaria a porta da capela que, apesar de alta, não se alçava para além da sua majestosa altura.

Mas gente do mar não se amofina à primeira contrariedade e assim logo foi ponderada a solução. Decapitar-se a santa. Foi pois serrado, com a delicadeza e a reverência possível, o seu esbelto pescoço, tendo-se depois entregue a mutilada santa nas mãos de algum ferreiro cirurgião, para que este lhe aplicasse as devidas ferragens.

Na primeira procissão que a Santa encabeçou, as hostes católicas reuniram-se em grande número no adro da igreja, certamente conduzidas pela devoção que se lhes reconhecerá, mas também levemente espicaçadas pela curiosidade de saber o que à Santa teria sido cometido para resolver tão intrincado e delicado imbróglio.

Eis então que avança o cortejo, ainda embaciado pela penumbra do interior da igreja. As manobras que se seguiram e que aqui se retratam foram assistidas com ruidoso júbilo e profunda admiração pelos fiéis que ali aguardavam. O pescoço da pobre imagem era então rodado nos gonzos e a cabeça tombava-lhe para trás, inerte, assim se fazendo passar pela ombreira da porta a santa rebaixada, com a cachola às costas, para logo depois, já a céu aberto, alguém usando a ponta do pau de estandarte com a discrição e solenidade recomendada, ajustar de novo a cabeça à santa decapitada, rodando-a no ronco das dobradiças até esta se encaixar com estrondo no busto aplainado.

E daí em diante era sempre vê-la, à nossa senhora naufragada e degolada, nos dias das festividades religiosas, encabeçar o cortejo do alto do seu palanquim, tão orgulhosamente carregada pelos seus abnegados e imaginosos sequazes, sob o júbilo das gentes do Alvor.

Anúncios

4 responses to “a santa decapitada

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: