para ti, com toda a minha força

Durante toda a vida desabotoei amizades. Eu que tão custosamente as junto em mim, incauta e irreflectidamente as deixei partir. E às amizades deve querer-se que elas aconteçam, e não que elas ‘desaconteçam’.

Uns deixei simplesmente que partissem, como navios na bruma, sem que nada fizesse contra isso. Indolente, deixei que as miudezas do dia-a-dia, os novos compromissos, as gravatas que passei a vestir, a minha pele de homem adulto, se esquecessem de os trazer comigo, se esquecessem também eles de mim. Alguns revejo incidentalmente e por lá ficam sempre promessas de um almoço, de um telefonema que não chegará a acontecer, porque as verdadeiras amizades, essas, não se retomam assim.

Outros, perdi-os mais violentamente e definitivamente. Assim me deixaram numa outra vida, uma vida sem eles, que tanto estranhei, em que me estranhei, mas a que me fui habituando de novo. Que fado este que os fez partir assim, como se me impusesse a espaços ter de recomeçar-me de novo, outra vez sozinho.

E poucas foram as verdadeiras amizades que juntei como homem adulto. Posso facilmente contar uma boa mão cheia delas, mas não tantas quanto aquelas que deixei desaparecer. Não deixa de ser estranho que um homem, à medida que vai crescendo, que vai conhecendo mais gente, acabe por ter menos amigos.

Ou não será tão estranho assim. A amizade que mantenho com eles já não é a mesma. Há um cultivo de anos e anos que a transcende, que lhe dá uma identidade própria, para além de mim  e essa é uma parte que implicitamente partilhamos. E cruza-se nisso tanta coisa, tanta coisa indizível, que já não podemos provavelmente falar de nós e deles, mas de nós neles, deles em nós.

E isso ocupa um enorme espaço.

Se calhar os amigos que deixámos de ter foram apenas o espaço que precisávamos ocupar hoje com os amigos que afinal mantemos. E provavelmente os amigos que ainda hoje temos já não são quem procurávamos quando precisávamos de ajuda.

São os que procuramos quando precisamos de nós.

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