travessias

Em Julho de 2007 havia assinalado neste blogue os dotes marítimos dos meus filhos, no que estes se confundem com a própria natureza do homem, entregando à posteridade o seguinte apontamento sobre uma travessia nocturna entre Mallorca e Ibiza:

Esta travessia foi diferente das outras. Dividimo-nos entre adultos e crianças e pela primeira vez tive como companheiros de turno os meus filhos. Interrompidos do sono por vontade própria ali se sustiveram no poço durante horas a fio, embalados comigo pelo planar calado e escuro do casco.  De madrugada, enramelados, foram eles que hastearam o sol nas mãos enquanto deixávamos pela ré o silêncio cavo da noite.

Observo-os. Quase tão súbitos como a alvorada,  o Francisco fez-se homem e o Diogo bom marinheiro.

Três anos depois registei algures no meu PC o mar que entretanto se fora cumprindo. E reza assim o meu envaidecido apontamento de 2010:

Finalmente tenho novas do Francisco e do mar. Julho, em travessia pelo sul de França contam-me de lá. E de lá contam-me também, mais tarde, que o turno da noite foi dele, mas já sem mim e sem outros. Três ou 4 horas por diante no breu do mar, atento nas velas e no fazer disso rumo enquanto tios e primas se entregam ao sono, confiando-lhe o casco.

Reflicto na travessia de há 3 anos atrás e comparo-a: não há simbolismo nisto, há mesmo uma verdade concreta. Desta vez eu já não estava lá, os outros dormiam e ele cumpria uma perna de vela, sozinho, pela noite fora. Assim ir, a sós, pela cala infinita da noite – e sei do que falo – já não é mera questão náutica, que isso, mais que dos dotes de marinhagem, requer sadias doses de confiança e paz interna. Conheço muitos que nunca chegaram até aqui, até assim, tão adultos consigo próprios para nisto não precisarem de companhia.

É também sorte, e disso faço aqui elogio, ter um tio que lhe concede tamanha prova de confiança.

Vem talvez isto a propósito de outros mares por onde este mais velho dos meus agora se vai lançando, oficiando-se no desfraldar do velame, trimando cabos, lançando-se por diante com a tranquilidade de sempre. E se dos seus dotes de marinhar a vida eu já nem devo cuidar, resta-me clamar, ainda que em surdina, que bons ventos o acompanhem nesse futuro de que faz rumo.

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4 responses to “travessias

  • Anónimo

    só uma entrada para dizer que escreves mesmo bem e que sugiro que leves isso a sério.
    é que talentos são dádivas de vida que a ela devem retornar em obra, cumprindo-se.
    hasta, A

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  • ainda que o considere excessivo, quero começar por agradecer o suposto elogio.
    quanto à sugerida institucionalização de uma versão impressa de fato e gravata, (como se o papel aqui garantisse seriedade, como se uma lombada garantisse a eternidade), que abuso em deduzir estar presente em sugestão … bom, a obra faz-se por si, cultivada na terra que lhe oferece o seu autor.querer materializá-la, por vaidade ou outro impeto qualquer, não lhe traz mais valor. a potencial notoriedade e os canais de comunicação mais ‘largos’ e institucionalizados não atestam a autenticidade e a relevância intrínseca das coisas. no caso presente, a ‘importância das coisas’ está no prazer de as escrever … ou saber calá-las.

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  • Anónimo

    de como se pode complicar uma simples sugestão vinda do puro prazer em apreciar o talento alheio… paciência, fico-me com o primeiro feeling de apareço sincero pelo texto lido, e ignoro o feeling de nó no estômago do comentário.

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  • lamento que assim tenha sido ‘ouvido’. não era intenção. aqui não há nós no estômago, apenas a interpretação das palavras … nem sempre bem

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