Monthly Archives: Setembro 2011

porque o mundo é redondo e a vida nos irá deixar onde nos pegou

Vinte e dois anos depois retorno à mesma actividade profissional, agora com menos cabelo, é certo, mas com o mesmo desassossego, a mesma motivação e a mesma angústia por saber que irei viver mais tempo no ar que cá na terra.


impudências

Depois de tantos dias, tantos meses e – se ignorados alguns incidentais e inócuos textos – talvez anos, retorno aqui de novo, a este espaço fundo cuja bocarra continua a ansiar por me tomar as letras.     E nisso aliciando-me da mesma forma de sempre, seduzindo-me nessa exaltação quase orgástica que os egos desmesurados sentem ao lançarem o seu pregão em público, mesmo que o façam no mais recôndito e abandonado local, e mesmo que insistam falaciosa e infindavelmente que apenas escrevem a si próprios, para nisso, assim, ouvindo-se, melhor se compreenderem. Tretas. Ninguém precisa de exteriorizar as suas verdades para depois as mastigar de novo, a menos que as queira aprimorar.

Hoje voltei aqui, inesperadamente. O mesmo impulso, quase a mesma indispensabilidade de me reinventar nessa espécie de versão mais bela de mim, mas falta-me a vontade. Ou talvez não, talvez ela ainda me acompanhe. O que já não trago comigo é o desplante de outros tempos. É curioso: desprendia-me de todas as vergonhas do mundo quando este espaço ainda continha um número apreciável de leitores e atrevido entretia-me a pendurar aqui alegremente as linhas com que costurava a alma e agora, que pouco mais é que um cemitério de palavras, sem vivalma, é agora que o pudor me veste.

Não, a escrita não é um dote, nem uma arte, é apenas esse mero exercício de desvergonha que alguns usam, melhor ou pior, para criarem a ilusão de se acharem indispensáveis. Há gente assim, como eu, que por mais que o desminta vive nesse pecado pendente de aspirar um dia a ser apenas uma esguia e indelével linha dactilografada, que anunciasse por exemplo: “eu estive aqui”. E poder viver nessa imortalidade perfeita de me saber lido todos os dias por mais alguém.


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