a ‘fossilidade’

Neste exacto momento estou sentado à janela de um quarto, em Copenhaga, a preparar o segundo dia do meeting que aqui me trouxe. Estou por isso longíssimo deste espaço lúdico que há tantos anos já, em vetustez, vai sobrevivendo. E estou distante também do tempo e da dedicação que outrora lhe emprestava.  E tão alheado ando da existência deste blog que só assim se legitima a surpresa com que recebo um mail de uma leitora (que sempre o tratou com denotada e até excessiva simpatia),  e que nele me recorda e felicita com uns : “Parabéns pelo 7º aniversário daquele que nunca foi apenas mais um“.

Ainda encarapinhado no espanto da efeméride cá da casa acabo por me ir dando a reconhecer que é de facto uma desusada idade para este gaveto de palavras, que não fora o mote de assim se ir dando por arquivado, a pouco mais se poderia entregar em propósito. Depois, quase carinhosamente, lá lhe vou notando os sintomas da artrose, o silêncio cansado, indiferente, e aqui e ali um balbuciar das mesmas coisas de sempre, e já mais nada que não apenas algum passado, cada vez mais toscamente retratado. Fico a hesitar se escreva algo, esse algo mais das coisas de sempre para que já não me sinto motivado, pois que afinal o momento não deixa de celebrar esta orgia de palavras que durante tantos anos brotou daqui.

E enquanto me disputo nisto vou-me deixando navegar para o seu antigamente, até chegar à sua infância, exactamente ao primeiro dia, há sete anos atrás, e aí mergulhando no nascituro texto que pela primeira vez aqui deixei, por entre nervosos arrepios.  Reli-o. Tanta inocência e tanta presunção. Mas afinal a mesma que me trouxe até aqui, que me traz agora aqui. Mas não é isso, nesse já distante texto, que me surpreende, mas sim as palavras com que ele se prenuncia. Pois ao contrário do que seria suposto ser a sua declamação de nascença, é afinal da sua morte distante que nos fala.

Ora leiam-no e se conseguirem abstrair-se do seu tão cândido estilo poético e se entregarem a interpretar-lhe os significados, provavelmente considerarão, como eu, o quão estranho (até monstruoso) é ler algo que se inaugura, a declamar a morte perpétua, de forma tão exacta, que sete anos depois, agora, o veste.

Fui …

As paredes do tempo
esboroam-se,
depois estáticas
quedam-se
amontoadas
num escolho parado.

A esteira do mundo
borbulha
em espuma de espanto,
desacelera a massa enorme
e rotunda e morta, 
em si mesma se deixa estancar.

A realidade incrédula
engole-se a si mesma
num turbilhão,
confunde-se de sonhos,
depois nem isso,
nada apenas

As coisas
que fizemos
inelutáveis
deambulam fossilizadas
na velocidade
de um meteoro perdido

Eu parto
E tudo o resto,
tão incrivelmente importante
Afinal morre
num sossego de indiferença

A ordem
desordena-se
num estertor
que acaba por finar
num zumbido
calado.

A beleza
embaraça-se, primeiro
e sem quem a acaricie
esconde-se
com riscos
gritados

A lembrança
esmorece
vai fugindo,
cada vez mais vaga,
ao fundo,
já foi

Uma chave range
e cerra-se a sala
desmazelada
da ébria festa
que súbita
acabou

E fui
deixando a incerteza
se no que foi
fui

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2 responses to “a ‘fossilidade’

  • Anónimo

    Vim ao seu blogue à pocura d’Os Pequenos Vagabundos, pois queria oferecer a Série ao meu pai e não a consigo já encontrar em Portugal. Não pude passar sem lhe elogiar o vocabulário, a linguagem, o discurso leve e solto e ainda assim solene. Parabéns!

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  • Obrigado. Quanto aos ‘pequenos vagabundos’, já tiveram laivos saudosistas neste ou talvez no blogue anterior, em post destacado ou talvez no correr das caixas de comentários, quando estas se agitavam de alguma actividade. Quem sabe encontre algo que a/o possa ajudar.

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