Monthly Archives: Dezembro 2011

porque o desejo só habita no que ainda está para vir,

nesse futuro que será sempre o lugar onde nos poderemos surpreender,

nada do que se deseja poderá ser por isso mentira ou impossível.

 

E por isso desejo-vos um ano de 2012 pleno de oportunidades de trabalho,

prenhe de mistérios

e de sótãos para reconstruir


natais e coisas que passaram

Este ano foi duro e áspero. Morreu-me mais um dos amigos de dentro, desses que são tanto de nós que não têm quem os substitua. E vai mais um caramba, e já são tantos. E  dei-me em magoar muita gente, não gente qualquer, mas justamente dos que quero mais próximos. E o físico, esse encarquilhou-se-me, prematuramente. Neste balanço são até secundárias as maleitas que agora partilho com o resto d0s portugueses e que tão bem senti na pele e no ordenado, porque nestas alturas em que vamos a contas sempre achei que as questões materiais serão as menos importantes.

Mas no meio disto tudo dou-me a concluir que foi um ano importante na minha vida. Que seja por isso, que pior que fazer mal é nada fazer e não sentir é nem ser.

Venha de lá esse natal, com os meus votos de aconchego para todos!


‘roupa velha’

Raramente, mas ainda acontecendo algures nesta blogosfera, vão brotando por entre os achaques políticos e o importantíssimo anúncio dos primeiros glu-glu-glus da criancinha alguns textos de uma enorme qualidade literária. Pena é que o amigo JPT, dos melhores que conheço a escrever ‘a sério’, não se tente mais vezes.


breve nota para um futuro manual de bricolagem

Evitar partir ao pontapé o tabuado arrancado, sobretudo se este tiver vindo com as cavilhas ainda agarradas.

E agora vou só ali levar uma vacina contra o tétano e já volto.


despindo as escoras do céu

 

 

 

 

Têm um ar entumecido, as traves que me escoram o sótão, de casca enrugada, qual cara de velha, aqui e ali lavrada pelo caminho do bicho que durante anos a fio a manjou.

Entrego-me a despi-la. Primeiro arranco-lhe a pele desvairadamente. Depois, sentindo-lhe já o aproximar da carne mais rija vou-me tornando mais brando. Passo-lhe finalmente a lixa de grão fino. No fim, um sopro sobre a última capa de serragem, de tão fina e leve a fazer-se de nuvem. Passo-lhe a mão e sinto-lhe a lisura da carne, agora dando-se ao tacto. O macio do eucalipto, meu Deus.

Que maravilha poder sentir-lhe o toque do belo de novo e saber ser eu quem lhe destapa a fealdade que, durante mais de um século, a encarcerou.

 


retorno civilizacional

Retomando uma velha prática bloguista, porque não resisto (ainda que com um decepcionado sorriso amarelo) ao humor que carrega, aqui atrelo imagem roubada no blog do amigo JPT


no reino d’Al Andaluz

Mais um meeting, desta vez em Granada. Em geral prefiro conhecer as terras calcorreando-lhes as ruas, mas nesta não podia deixar de refrescar as memórias quase apagadas que tinha do Alhambra.

Para além da engenhosa arquitectura mourisca e dos detalhes da sua arte (ainda que algo aplacadas pelo fervor católico quinhentista e por várias camadas renascentistas), o que mais me conquista neste lugar é a forma como ele domestica e enaltece a natureza: são os cursos de água e a forma como estes contagiam de exuberância tudo o que encontram à sua passagem, mas sobretudo a abundância da vista, esse maravilhoso ecrã que as suas construções nos oferecem sobre o mundo e a tranquilidade com que essa distância de observação nos parece envolver.

Alcanço agora o Alcazaba e recordo-me da vez anterior, faz muitos anos, que por lá andei. Primeiro lanço a vista pelas cercanias do Alhambra e por Granada,

 

 

e depois volto-me e procuro-a, na parede do torreão por trás de mim. E sorrio. Sorrio da minha memória de quase vinte anos, ali, reencontrando-a, mas também da forma como ela distorceu, para sua conveniência, o que agora leio. A bem da verdade do dito, fotografo a inscrição, conforme lá consta, pois é assim que nela se diz tudo:

 

Fica aqui a desculpa pelo adultério que dela fiz durante anos, em bom português:

“Dai esmola, mulher. Que não há pena maior que ser cego em Granada.”


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