Monthly Archives: Março 2012

das notas soltas por compor

Há em todos nós uma pauta musical sobre a qual vamos suspendendo, por cada uma das suas cinco linhas, as nossas colcheias, semi-breves e claves de sol. Com cada uma dessas notas grafamos um momento, uma decisão, quem sabe até uma vitória importante que ousamos assinalar com a entrada vibrante de um clarinete. Ou talvez não.

As batidas e andamentos, qualquer métrica musical, são coisas para que raramente temos tempo. E a essa pauta carregamo-la tão desmazeladamente, tão sem ritmo e arte, que aquilo que deveria resultar na sinfonia da nossa vida – uma mesmo que breve composição das notas que fomos trauteando – sem compasso que as enquadre, sem andamento que lhes traga temperamento, sem adágios nem vivaces, resultará afinal numa tumultuosa e descompassada cacofonia.

As coisas, (inclusas as que mais nos orgulhamos), nada valem, só por si. Tal como as notas musicais, têm de ser aninhadas e entrelaçadas com esmero e pulsação, quando as queremos guardar em nós. De outro modo, tornam-se inaudíveis. E deixam de ser nossas.


a escrita escavada

Quase todos os poucos blogs que lia estão inactivos
Quase todos os livros que quero ler se amontoam
Quase todos os jornais que compro nem os abro
Quase todos os mails que rabisco retrocedem no envio
Quase todas as coisas que tinha para escrever se tornaram veladas
Quase todas as conversas que arrisco as interrompo
Até às hesitações as escondo e lhes tiro as vírgulas

Quase tudo em mim é já só eco de mim
O mundo mirrou até às fronteiras do que sou
Que fastio este, que território minúsculo
Onde nem se pode gritar
Com medo que nos caia a pele


do nem querer ser não ser

Mesmo assim, meio torto e velho, nem sou feio – mas não esse tão belo. E há qualidades em mim, que as há, mas tantas debilidades juntas também, nesse caldo do que sou, que – não, não há forma de me depurar numa qualquer espécie de criatura perfeita.

É certo que poderia tentar. Açaimava alguns defeitos e aos poucos transmudava-me para uma alma de pronto-a-vestir, coisa de vinco irrepreensível e humores afáveis.

Sim, provavelmente alcançaria ser mais belo e melhor, quem sabe até sem estas horriveis dores lombares que tanto me afligem. Mas, (e sempre este defeito, apenas mais um, de me interrogar com coisas de menor importância), com que morfina amansaria a dignidade deste aqui, deste que sou?


das imprevidentes artes da culinária

Pode-se chegar a uma casa grande e não encontrar ninguém. Há a música, uma garrafa de vinho que ficará por meio, há a escrita, o que for, há tanta coisa com que podemos brindar a nossa solidão. Mas o que eu nunca conseguirei superar é ter de comer a minha feijoada a sós.


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