a minha lista de telefones

Há alturas em que dou por mim a correr a lista de endereços do telefone. Um por um, vou desfolhando todos os seus nomes. Faço-o ardilosamente. Sei que não irei ligar para nenhum e que nunca terei aquela conversa, mas conforta-me saber que o poderia fazer. Sim, falo das palavras que prendemos em nós, que titulamos de indiziveis, falo do silêncio com que as sepultamos pelo simples facto de nem a nós as sabermos proferir.

Hoje aconteceu outra vez. Um por um, sempre um por um, leio os seus nomes e vou brincando com os meus dizeres, reiventando-os vezes sem conta porque, um por um, com cada um, teria sempre palavras diferentes de o dizer. Provavelmente é por isso que me empresto a este exercício estéril, para me ouvir do que a cada um teria para dizer, sobre o que não irei dizer.

E a lista continua a desenrolar-se, cada um deles a dar-me mais uma possibilidade, ainda que breve, porque já de seguida vem outro e outro e ainda assim tantos, um punhado deles afinal. Paro no “F”. Ainda lá está. Depois no “J”. Mais à frente no “P”, verifico-o também. Subo e desço essa lista dos meus nomes e aos poucos vou confirmando o que em mim inventava nem saber. Nunca os apaguei. Nem aos seus nomes.

São inúteis agora. Se os premisse sei que do outro lado ninguem atenderia e no entanto nunca decidi apagá-los. Poderia apagá-los agora, já que assim os descubro, reconhecendo que nunca mais haverá tempo e oportunidade para falarmos mais uma vez. Mas deixo-os ficar. Porque a minha lista de contactos não é uma lista de telefones qualquer, é a minha lista de telefones. A deles.

Sem que nunca tenha reflectido sobre isso sei agora porque é que todos os seus nomes lá permanecem, entrelaçados com todos os outros, indistinguíveis e por isso tão distintamente presentes. Hoje, como ontem, ou amanhã, continuarei a contar com eles para o meu silêncio, o silêncio das palavras indizíveis. Porque a minha lista de telefones não é uma lista de telefones qualquer, é a minha lista de telefones, que uso para falar, ou para calar o que não sei dizer, repito-o, repito-me. E nisso não há mortos nem vivos, há apenas amigos.

Enfim, nos dias comuns nem sempre olho para ela assim, é verdade … mas hoje não é um desses dias. Atende, caramba!!!

(este texto entrego-o ao Diogo, um homem que, como eu, padece do mal de se querer dar no dizer)

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3 responses to “a minha lista de telefones

  • j

    zé.
    tb eu não apago esses números e uma vez num sonho precisei de fazer um telefonema para uma pessoa tb mto querida e no pp sonho pensei:
    -ainda bem que não apaguei.
    como se a realidade estivesse invertida.
    qd acordei senti qq coisa entre a saudade e a tristeza.
    belo texto… grande escrita.
    um abraço

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  • É como o Zézé diz na simpática réplica que fez lá no seu blog. Todas estas nossas listas de telefones, são (quase) a mesma. Não só porque têm muitos endereços em comum, mas porque têm em comum muitos endereços destes.
    Um abraço aos dois

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