Monthly Archives: Abril 2012

o homem por metade

Tenho dois filhos apenas numa metade de mim. Na outra metade insisto julgar que lhes vou abrigando o futuro. E entretanto eles vão crescendo, eles já cresceram, sem tempo meu, tão ocupado a construir-lhes uma cabana na copa das árvores onde agora já nem têm idade para brincar. Tanto zelo. Tanto atraso. Tanto destino que vou perdendo nesta ilusão de lhes querer ir amaciando futuros.

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… a chaleira já está cheia e o lume aceso

Este escrito sobre nós tem 69 anos:

“Pesa-nos a autoridade, atrofia-nos a disciplina, seduz-nos o hipercriticismo por motivos fúteis, parece-nos salutar entretenimento descartar homens e destruir governos.”

É-me inquietante reconhecer a sua actualidade, mas mais ainda concordar com o seu autor*, não por ter sido quem foi, mas pelo estado de contingência a que os juízos de então nos conduziram .

* que, para não induzir juízos prévios, oculto no separador debaixo

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depois de tanto (…),

como cheguei eu até aqui,

a este sítio onde não sei para onde vou?


da escuta

Nós, portugueses, não sabemos escutar. Em geral, quando argumentam, debatem ou apõem ideias, as pessoas não se olham nos olhos e por isso não escutam atitudes, não atentam às pausas e por isso não se apercebem dos ênfases e de caminho ignoram tudo aquilo para que não estiverem preparadas para escutar. Isto quer dizer que do que os outros dizem extraem apenas a parte do seu discurso, que por isso são incapazes de enriquecer e alargar o seu objecto de conversa, porque não estão susceptíveis a acrescentar o que quer que seja aos aspectos que trazem de si para ela. Depois debruçam-se sobre esses, interpõem razões num processo de argumentação que apenas pretende fazer retorno das suas razões, que apenas projectam nos outros para se fazerem sentir mais confiantes das suas opiniões prévias.

Em Portugal o processo de comunicação não serve para ampliar hipóteses e para melhorar ideias, é apenas uma guerrilha de palavras em que cada um tenta levar de vencida aquilo que sobre o assunto acha, deixando de fora o que de novo o outro possa acrescentar. O que deveria ser o mais promissor exercício de construção, ao qual dedicamos a maior parte do nosso tempo, afinal, nada mais é que um estéril momento de validação do que já achamos, ou seja, um espaço a dois que cada um habita sozinho. Porque nós portugueses não escutamos e pouco nos interessa o que os outros possam achar sobre coisas que nem pensámos ou às quais não damos importância. Isso quer dizer que passamos o dia a desperdiçar tempo e oportunidades, a desperdiçar aliados, enquanto robustecemos as nossas ideias até que estas se tornem impenetráveis – com isso julgando-as irrebatíveis – e a plantar clivagens que vamos atenuando com um sempre eterno: “mas sobre isso já nós tínhamos conversado”.

Nós portugueses não sabemos escutar. Quase sempre porque estamos demasiado ocupados a reclamar com alguém que não nos escuta.


subvivência ao almoço

Favas mirradas do tamanho de ervilhas! Até o clima se conjura para a pequenez que nos vai cercando.

Resta-nos a ilusão, essa ancestral crença de que melhores tempos virão. O futuro será sempre a incógnita que manusearemos para ir adiando a fenecimento do presente.


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