diário de um sótão

Daqui a meia hora vou entregar a afagadora, depois fazemos as malas e arrancamos, por fim, para férias. Ou quase. Os dois mais novos desandam para casa intermédia enquanto nós, os progenitores, durante o dia de amanhã, em turnos, encharcamos o sótão de xilófene. Depois sim, trancamos a casa e partimos. Foram 6 meses, em que todos os dias subimos as escadas durante as horas que nos iam sobrando. Depois, nos últimos dois meses, eu a deixá-los de manhã, com o briefing diário, e a substituí-los ao fim do dia, eles exaustos, eu também. Não chegava, disso nos íamos dando conta. Nas últimas 6 semanas fizemos uma investida total. Eles folgando com umas idas ao algarve, e voltando, reiniciando, progredindo dias a fio de lixadeiras na mão, nós agarrando todas as sobras dos dias.

Nos últimos dias (re)fizemos várias vezes o nosso plano. O objectivo era acabar com o trabalho árduo, deixar para o depois apenas as trinchas e algumas reconstruções que eu teria de fazer e, só depois, arrancar, largar tudo e estatelarmo-nos no descanso. Os setenta e dois tarolos que suportam o assentamento das telhas estão todos escovados a fio de aço, os madeiros que os escoram, um por um, lixados e polidos, o soalho todo ele remendado, enxertado e por fim afagado. Estes últimos dias passámo-los por inteiro, os quatro, lá enfiados no meio de nuvens de serrim, de dedos magoados e rios de suor. Nenhum lançou um lamento, nenhum deu mostras de ser o primeiro a pedir tréguas.

Hoje, na pausa do almoço propus novo ponto de situação. Faltam-nos ainda uns bons dois ou três dias. Há disponibilidade mas também muito cansaço e algum desalento por um trabalho sem fim. Mas nenhum deles, ainda assim, se propôs dar por concluído o que ainda não o fora. Fui eu que o fiz, que sugeri que ficássemos por aqui, por agora, eu, o mais obstinado, agora, o primeiro a ceder. Vamos parar e partir. O sótão pode não ter ainda ficado acabado até onde queríamos, mas o que nele já foi feito, com traves de afectos, cavilhas de orgulho e soalhos de admiração, faz dele mais nosso que qualquer metro quadrado de uma qualquer casa de família.

Pois sim, vou para férias, mas este blog vai escrevinhar retrospectivamente toda esta imensa experiência. Que é para coisas assim, de construir, mais do que as fotogénicas coisas acabadas que, afinal, importa guardar no álbum de família.

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