Monthly Archives: Setembro 2012


do tempo dos pirolitos

 

Descia a rua em passo lento e velho a tocar a campainha, num tilintar débil e longínquo que com a aproximação se haveria de tornar súbita e excitantemente perceptível. Num instante, brotávamos de todo o lado: do cimo dos muros onde matávamos as tardes sentados em conversetas, arribando com estrondo de portas de dentro das moradias, outros florindo por milagre do meio das sebes desmascarando esconderijos nos jogos da ‘apanhada’. Súbito, um enxame de miúdos, afluindo dos mais insuspeitáveis lugares e brincadeiras por onde nos espalhávamos ao longo da tarde, amontoava-se ao redor do triciclo de onde iam saltando os pirolitos. Nada mais do que açúcar caramelizado de modo caseiro e depois derramado em cones de papel que no final chupávamos até não serem mais que uma pasta amolecida. Mas a diligente velhota, fazendo pela vida, diversificava nas receitas caseiras, e outro dos regalos que nos trazia, para além das pastilhas gorila e das gomas, eram as bolachas de baunilha esmagadas em saquinhos de plástico que revirávamos na boca.

Nessa altura não havia ASAE, o tempo era mais demorado e o mundo era feito de coisas importantes, como aquela hora do dia em que tilintava a campainha da bicicleta transformada em triciclo de rebuçados e saquinhos de bolacha esmagada.


os magos da ressuscitação

Aqui há uns dois meses lamentava-me, ainda que com uma típica indiferença blasé, pela perda de um espólio com quase dois anos de escritos, simplesmente porque a plataforma que alojara o meu blog anterior desaparecera. Pufff.

Hoje descubro que o blog Aventar prestou um verdadeiro serviço público, realojando o conteúdo de uma parte significativa desses blogues por sua própria iniciativa e empenho e que lá posso reencontrar o que julgava perdido para sempre.

Para um profundo analfabeto deste éter moderno carregado de tecnologias com siglas estranhas é grato saber que há nele magia suficiente para trazer à vida o que se julgava morto para sempre e que nesse olimpo da técnica, por cada mago que o habita com intuitos maldosos ou displicentes, haverá sempre um outro, magnânimo e generoso, que o confronta e que zela por nós. Obrigado ‘aventares´!

Na era das redes sociais, onde a escrita pouca mais regista que essa espécie de logs das coisas fúteis espontâneas do nosso dia-a-dia e que por força dos tempos que correm estou em crer que tenderão a tornar-se plataformas de micro-comércio doméstico, é grato saber que espaços onde há mais de uma década se albergaram alguns textos sublimes que ainda hoje me dão gozo revisitar, não desaparecem com a mesma ligeireza com que hoje se inventa uma nova petição pública ou se linka um vídeo com palhaçadas do Futre.

Nada disto é mau. É a amplitude e diversidade destes meios que afinal propicia a que, seguindo casualmente um comentário de uma simpática licenciada em música a propósito de uma notas soltas que deixei num dos meus posts, acabe por chegar a um sítio onde me abono do milagre de voltar a recuperar os escrevinhanços que julgava extintos para sempre e de muitos dos espaços que sempre visitei.


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