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do tempo dos pirolitos

 

Descia a rua em passo lento e velho a tocar a campainha. Um tilintar débil e longínquo que com a aproximação se haveria de tornar súbita e excitantemente perceptível. Num ápice brotávamos de todo o lado: do cimo dos muros onde matávamos as tardes sentados em conversetas, assomando de dentro das moradias com estrondos de portas, florindo por milagre do meio das sebes onde nos escondíamos nos jogos da ‘apanhada’. De súbito, um enxame de miúdos, afluindo dos mais insuspeitáveis lugares e brincadeiras por onde nos tínhamos espalhado ao longo da tarde, amontoava-se em redor do triciclo de onde iam saltando os pirolitos. Nada mais do que açúcar caramelizado de modo caseiro e depois derramado em cones de papel de cera que no final chupávamos até não serem mais que uma pasta amolecida. Mas a diligente velhota, fazendo pela vida, diversificava nas receitas caseiras e outro dos regalos que nos trazia, para além das pastilhas gorila e das gomas, eram as bolachas de baunilha esmagadas em saquinhos de plástico que revirávamos na boca.

Nessa altura não havia ASAE, o tempo era mais demorado e o mundo era feito de coisas importantes, como aquela hora do dia em que tilintava a campainha do triciclo de rebuçados e saquinhos de bolacha esmagada que logo ali se enxameada de miúdos. Nesse instante não havia lugar mais importante no mundo.


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