Monthly Archives: Novembro 2012

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Das escadarias que já foram mundo

[ Um dia escrevi num outro blog, nostálgico, até compadecido desta pressa com que o tempo nos sopra, algo sobre o ciclo da vida:]

Uma fileira de prédios numa rua como tantas outras. Num deles a escadaria quase sempre enxameada de crianças. Por trás um estádio com relvado de cimento, tardes poeirentas, joelhos esfolados, heróis, ciganos que roubam bolas.

O bairro a ficar mais comprido. Novas escadas, mais gente. Correrias e algazarras, o cansaço, a seguir, a pousar-se ao fim da tarde em conversas moles e cheiros acres de suor seco. Miúdos a fazerem-se mais gente, alguns mais que imberbes, já mais conversas que correrias, já se fundam amizades. Os dias escoam abotoados em risos, histórias, gritarias a zoarem pelas horas do nada fazer.

Depois chegam as motas, as namoradas, façanhas e regressos gloriosos. Mortes. A vida a crescer, a fazer-se valer. Agora as coisas já se contam porque as coisas já não acontecem no meio de todos, ainda gestos de querer juntar vidas, as pontas que durante o dia as separam, conversas enleadas no fim das noites entre cigarros, ganzas e discussões, já não só conversa, cada um já a fazer de si. E o mundo rola e leva o tempo com ele.

Desfiam-se licenciaturas, artes e outros jeitos com que cada um inventa fazer o seu futuro. Do mesmo sítio de sempre partem agora muitas estradas e os fins de tarde são agora mais esparsos e casuais. Depois quase nem isso, já só por acaso as escadas ainda os juntam, alguns barbudos, até carecas, quase sempre só de passagem. A cidade de fora cresce, engole-os, uns não voltam, nem tão-pouco se despedem – de quem afinal?

A vida esticou-se e partiu-se em muitos pedaços diferentes e os miúdos, crescidos, ficaram distantes. Entrevêem-se ainda alguns, dos que hão-de retornar sem avisar, a (re)fazer segunda vida, dos que vêm apenas de visita à sua prole. Algumas bicas, histórias e reencontros rápidos, quase só acenos, coisas de quem já está do outro lado da rua das escadas que faziam de mundo ao fim do dia.

Uma fileira de prédios, uma rua. Escadas? Ouvem-se risos. Alguém na pressa do passar espanta-se de ouvir ali crianças. Mas não, hoje já não. Naquelas escadas já não. Haverá outros pousos, pensa – haverá? Depois vira ao fundo no cruzamento, (tantas vezes por ali passou a caminho da escola, de bornal a tiracolo carregado de pinos), e pára. Um semáforo! Agora há semáforos. Nenhum outro carro se deteve perto do dele e ninguém lhe viu a interrogação, dentro de si, envelhecer.


momento terapêutico

Há pouco tempo deram-me conta que andava nisto há 8 anos. Como todo aquele que se derrama na escrita e após tanto tempo, já não tenho pejo do onanismo de me autocitar, para dizer:

O mensageiro

Foi-se me a carne. Resumo-me a uma banca de escrita onde faço assentar as minhas ossadas depuradas da atrapalhação das emoções. Cresce-me o espírito e arriba-se a escrita, cuidada e asséptica, quase aritmética – a caneta volteia nas minhas falanges com uma habilidade treinada. E escrevinho coisas que vão já para além de mim, das minhas hesitações. Aperfeiçoo-as. Aperfeiçoo-me, quase até ao impossível que a escrita permite. Sou agora um ser irrepreensível. E contudo, descarnadas, descarnado, já não há quem escute, quem me admire.


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