Monthly Archives: Janeiro 2013

das voltas da vida

Um após outro, ouço-os partir. Ontem um amigo, agora até família. Estes abalos para terras alheias a ganharem uma frequência cada vez mais inusitada e eu a deixar-me ficar, de sorriso desarrumado, confuso nisso de me ver sem eles mas ao mesmo tempo de os saber de novo com destino, a gizar equações.

Não deveria ter de ser assim. Por mais que já tenhamos vincado estas dobras da vida, nunca haveremos de estar preparados para as partidas, assim súbitas, a esburacar em nós lugares vazados. Era bom que não tivesse de ser assim, mas ainda bem que pode ser assim. Ver alguém partir para lugares estranhos, a lançar recomeços, não devia acontecer, mas ainda bem que neles há força para isso poder acontecer. Sei que irão na demanda de novas oportunidades, as que aqui lhes vão faltando. E também acho que sei, mesmo sem ter sentido esse arrepio nos meus ossos, o quanto essa atroz opção, ainda assim, é tão indispensável para o renascer de uma vida que por uma sorte macabra se foi esboroando até à desesperança.

Nos tempos que correm, no meio de tanta coisa que não nos devia estar a acontecer, esta é talvez das que mais mexe comigo. Por um lado a sentir-lhes a ilusão, o vigor e a coragem de os ver agarrar o destino pelos cornos, por outro lado, eu, carpindo desalentos, a ficar, a deixar-me ficar, a fazer parte deste país que os desdenha.

Hoje li uma citação num facebook amigo que dizia assim:

De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravatura que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta

 José Rentes de Carvalho, in Portugal, a flor e a foice – Novembro’75

É tão absurdamente verdade isto!

Aos meus amigos que vejo partir, desejo-lhes melhor sorte do que esta minha, a da “renúncia à revolta”. E eles que me desculpem por isso


da idade e de mais alguém que se junta em mim

Também eu, como tu, senti de forma irreparável a perda do meu pai. Como tu, presumo, também a minha vida deixou de ser a de sempre para passar a ser outra, a minha vida sem ele. E também eu, como tu, depois de o ver partir, voltei a perder um grande amigo, por uma e outra vez e por mais outras tantas que já não quis contar. E mais uma vez a minha vida voltou a não mais ser a mesma. A vida que nos vai restando vai ficando esburacada deles. Não das suas memórias, mas das suas presenças, como se só agora percebêssemos que – sem um ocasional convite para jantar, um conselho num entre-conversas, uma gargalhada arrastada ou um súbito silêncio desses que não nos trazem incómodo – nos arriscamos a peregrinar mais dentro de nós, sem sentido e direcção. Sabes quando mais os sinto? Quando algo de bom me acontece, quando algo de bom eu faço e sem poder ver neles o orgulho de mim. Sim, no fundo sentir a perda deles é este mero acto de egoísmo vaidoso, esse de sabermos que aquilo que somos e as façanhas que juntamos já não nos sabem tão bem nem nos fazem parecer tão grandes sem os seus olhos brilhantes a falarem de nós.

Depois resignamo-nos a viver assim e aos poucos substituímo-los dentro de nós. Não as suas memórias, nem as suas vozes, nem esses laivos dos seus gestos que nos aparecem a partir de breves coincidências, mas esse ver-nos no que neles gostávamos de ver de nós, essa outra forma de nos amarmos a nós próprios, que antes, com eles, nunca tínhamos precisado. Cresce-se assim? É crescer isto? Envelhecer? Não sei. Nada sei sobre este ficar privado de alguém, porque cada vez que isso me acontece sinto-o como da primeira vez. Umas superam-se melhor, as outras obrigam-nos a ser mais fortes, mas nenhuma nos prepara para a que vier a seguir.

Não sei escrever nada disto, deste tudo que esse nada tanto significa. Sei que comigo é assim, como creio que contigo também o é, como em todos será. E sei também, sinto-o no meio desta tanta ausência, que mais do que as palavras que não me conseguem explicar, há uma espécie de conforto por entrever-te aí, lá na distância da tua mágoa que assim partilhada parece mais curta. No fundo nem importa que tenhamos de explicar essas ausências, mas sim que nos saibamos ainda à distância um do outro. Importa sim que ainda possamos estar… mesmo que agora já sejas um deles.

Pois, agora fazes também parte de mim. Ainda ontem falavamos sobre este lugar, em conversa corrida, e tu levavas-nos avante sem vírgulas nem hesitações, enquanto eu te tentava seguir e compreender. Agora, quem sabe, ouso pensar que estavas apenas a arrumar um espaço neste futuro a que já não pertences, um sítio em mim onde pudesses pernoitar, algures neste meio século de mim que agora nos irá juntar. Sei agora, vou sabendo, que o envelhecimento não advem dos anos que passam por nós. Ninguem se cansa de envelhecer, o que vamos é andando mais afadigados com aqueles que vamos carregando dentro de nós. Mas acomoda-te algures aí, aqui, perto dos outros, que eu ainda vou continuar por cá mais um pouco.

Aquele abraço


%d bloggers like this: