das voltas da vida

Um após outro, ouço-os partir. Ontem um amigo, agora até família. Estes abalos para terras alheias a ganharem uma frequência cada vez mais inusitada e eu a deixar-me ficar, de sorriso desarrumado, confuso nisso de me ver sem eles mas ao mesmo tempo de os saber de novo com destino, a gizar equações.

Não deveria ter de ser assim. Por mais que já tenhamos vincado estas dobras da vida, nunca haveremos de estar preparados para as partidas, assim súbitas, a esburacar em nós lugares vazados. Era bom que não tivesse de ser assim, mas ainda bem que pode ser assim. Ver alguém partir para lugares estranhos, a lançar recomeços, não devia acontecer, mas ainda bem que neles há força para isso poder acontecer. Sei que irão na demanda de novas oportunidades, as que aqui lhes vão faltando. E também acho que sei, mesmo sem ter sentido esse arrepio nos meus ossos, o quanto essa atroz opção, ainda assim, é tão indispensável para o renascer de uma vida que por uma sorte macabra se foi esboroando até à desesperança.

Nos tempos que correm, no meio de tanta coisa que não nos devia estar a acontecer, esta é talvez das que mais mexe comigo. Por um lado a sentir-lhes a ilusão, o vigor e a coragem de os ver agarrar o destino pelos cornos, por outro lado, eu, carpindo desalentos, a ficar, a deixar-me ficar, a fazer parte deste país que os desdenha.

Hoje li uma citação num facebook amigo que dizia assim:

De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravatura que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta

 José Rentes de Carvalho, in Portugal, a flor e a foice – Novembro’75

É tão absurdamente verdade isto!

Aos meus amigos que vejo partir, desejo-lhes melhor sorte do que esta minha, a da “renúncia à revolta”. E eles que me desculpem por isso

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8 responses to “das voltas da vida

  • jpt

    Não. às vezes talvez. Mas não.

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  • Anónimo

    Também mexe comigo…Devia ser um direito constitucional esse de fazer vida no nosso país.
    Zé, pense na força deles e «no lançar recomeços» noutros lugares. Talvez não seja por muito tempo. Terão sempre em si um porto de abrigo e um lugar quente onde regressar sempre que fôr necessário e se a sorte não estiver do lado deles. Mas há também quem diga que »a sorte proteje os audazes»… Abraço.
    Ah! O meu marido gostou muito do seu texto sobre a morte de um pai.

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  • jpt

    Não quero num blog tão aprazível, sensível e sensato, impor polémicas. Mas, honestamente, e com todo o respeito pelos que partem a contra-gosto e pelos que ficam, algo amarfanhados, este texto que aqui colocas é um chorrilho de asneiras. A escravatura, o tanas; o direito mais elementar não é, claro, viver num qualquer país, nem mesmo o próprio; e a emigração não é a renúncia á revolta, só por si
    enfim, o que interessa é que há tipos a emigrarem, alguns até conheço, e isso toca-te. Pronto, isso saúdo e espero que tudo corra bem, aos que vaão, aos que ficam, aos que já foram. E aos outros também

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  • Zé, sei que a tua caneta traz um balanço in-blog a propósito deste tema que rola por aí. Fui lendo e concordando com as análises, na generalidade, e percebo a fundamentação rigorosa que as suporta. Mas admitamos que nem todos os textos têm de ser interpretados pelo tom da racionalidade sociológica, que nem tudo tem de ser medido pela extrema das palavras. Há sentires que, justamente por serem isso, ignoram a visão algébrica da exactidão para transportarem (transporem) um estado emocional. Valem pela força que dão ao que querem gritar e nisso são tão mais eficazes quanto a capacidade da síntese (a forma poética às vezes, noutras o troar dos aforismos, são sempre bons canais) do que querem partilhar e nisso desculpa-se (eu desculpo) imprecisões de conteúdo. Admito que o texto citado possa ser discutido num quadro de rigor sociológico, político, até antropológico, mas aqui, neste “aprazível e sensível” blog, como dizes, afastado do mundo mais sério, arguto e barulhento onde estas coisas da e/imigração estão agora na barra da discussão, daqui, não vejo nenhum chorrilho de asneiras, apenas uma forma apta de caracterizar em três dimensões esse “partir sem querer”, essa “realidade que nos obriga a sair” e esse “ficar amodorrado de quem vai ficando, sem fazer barulho, que isso a si ainda não tocou”.

    Compreendo uma maior discordância no exagero da “… forma de escravatura que ainda subsiste até hoje”, mas recordo que o texto é de ’75. Sabemos bem de que emigração estamos falando nessa altura, das condições que a levavam a acontecer e das condições que a esperavam do lado de lá. Eram sempre uma opção de cada um, claro que sim. Mas quando alguém se entrega a um desterro que chegava a ser miserável no que toca às condições humanas, será que tinha muitas outras opções. A emigração que agora se vai acentuando é diferente, são migrações de outra gente. será?

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  • jpt

    Já passou um mês sobre este teu comentário e porque aqui vim ler só agora o entendo. Desculpar-me-ás mas isto parte de um erro, meu. A minha irritação com as “asneiras” no texto estão na citação do Rentes de Carvalho – foi isso que me irritou, não o teu texto (que está bem, como de costume). Desculpa lá, com a pressa de protestar esqueci-me de frisar bem isso.
    Sim a emigração, quando não voluntário (e mesmo quando o é), é violenta. Mesmo que positiva. E compreendo a tua percentagem do postal. Não, o texto de Rentes de Carvalho, não tem ponta por onde se lhe pegue. Poderá se se quiser fazer uma análise de 75 -mas também não me parece muito produtivo. Não o pode, apenas como fraca demagogia, se for para hoje.
    Mas enfim, só teclo para esclarecer que a minha ira se destina à citação

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