Monthly Archives: Janeiro 2014

quando as praxes académicas não eram provas de acesso para os ‘fuzileiros’

Cada um dos três anfiteatros do Técnico, no pavilhão central, são salas austeras, carregadas com a patine das madeiras escuras envelhecidas e um palco a toda a largura onde o douto professor, dessa posição central, dissertará nas suas digressões matemáticas durante uma intensa hora de palestra. O edifício espartano do estado novo que as aquartela ajuda ainda mais à interiorização de um sentimento de reverência nos atemorizados caloiros, pouco preparados para lidar com espaços tão impregnados do simbolismo do saber, de um estatuto académico que ainda não tomam por seu, mas sobretudo carregando um humilde temor pelos anos e anos de estudo árduo que se avizinham.

Cerca de duas centenas de alunos, à hora exacta, ainda desconhecidos uns dos outros, não disfarçando o orgulho que trocam entre olhares, aguardam num silêncio quase surpreendente. Subitamente bate a porta, enorme, de madeiras maciças, com um estrondo que os pobres ferrolhos não conseguem atenuar. O professor, um indivíduo magro, nada vetusto, sem uma batina sequer e com gestos acanhados, avança para o palanque. Corre por instantes um incontido sussurro de espanto. Sem uma pausa sequer, rasga-se um rugido guinchado que inunda o anfiteatro; dois quadros enormes, ligados por arcaicos sistemas de roldanas, trocam-se num movimento vertical. O professor, sem uma palavra de acolhimento, vira-lhes as costas e numa azáfama solitária começa a escrevinhar rocambolescas equações diferenciais pelo enorme território de ardósia. Meia-hora depois, não disfarçando um pequeno arquejar de tédio, detém-se. Atrás dele espirais de giz cruzam em todos os sentidos um quadro gigantesco com mais de 8 metros de comprido.

“Quero acreditar que vós, os venturosos que aqui chegaram, todos conhecerão os lagrangeanos.” Não o dizia interrogativamente, aliás, não mostrava qualquer intenção de aquilatar a base de conhecimentos daquela assembleia de neófitos aprendizes. Era apenas o seu modo de resumir as centenas de equações, algumas das quais atravessando várias linhas do quadro, que nós, pobres calouros, ainda fazíamos por passar a limpo para os nossos cadernos até aí imaculados. Aguardou alguns segundos. Nada se ouviu da assembleia. Um silêncio profundo que ele aguardou com indiferença, para acabar por quebrar num lamento sussurrado, ainda que suficientemente audível, com um resignado e triste “cada vez me chegam piores”. Depois, alegando qualquer coisa como não poder pôr em causa o extenso e indispensável programa curricular para andar agora a fazer revisões de matéria que um aspirante a engenheiro já deveria acomodar na sua sólida bagagem de estudante, empurrou para cima, num movimento brusco e insuspeitavelmente enérgico, o pesado quadro que andara a escrevinhar. Novo estrondo, como que a dar o mote para virarmos mais uma página. Num ápice, o outro quadro enorme , num descer meio bamboleado, trocava-se e substituia o que antes estava por baixo.

A segunda metade da aula passou-se mais uma vez em silêncio. O Professor de costas, anotando, linha após linha, um rol interminável de bibliografia. Laboriosamente escrevia, de cor, o título da obra – na maior parte das vezes assustadoramente ininteligível – e o seu autor, recomendando, conforme se dava o caso, as edições e os anos mais aconselháveis. As mãos doíam-nos de tanto escrevinhar, a tinta saia-nos das canetas escorregadas em suor e os cadernos que aprontáramos para o semestre levavam já páginas e páginas lavradas de coisas atemorizantes. Concluído o rol, virou-se com gestos pausados e indiferentes para nós e pela primeira vez nos encarou, se é que o facto de simplesmente nos fitar de forma abstracta e enfastiada pode levar a este excesso de linguagem. Recomendava-nos que tomássemos conhecimento desta bibliografia, pois que sendo certo que não era matéria que integrasse o programa que viria a tratar nesta cadeira, não a recomendaria como estranha aos seus discentes, pelo menos para aqueles que pelo menos aspiravam poder acompanhar as suas aulas desde o início. E isto porque, o que ali fizera o favor de nos sugerir, era o que afinal qualquer candidato a licenciado àquela prestigiosa casa do saber, deveria trazer já no seu bagagem de conhecimento. No fim saiu, ao toque da campainha, com o mesmo rigor cronométrico com que entrara. Nem um olhar, nem uma hesitação, a aula havia terminado.

Só na semana seguinte, quando ainda mais minúsculos e atemorizados nos voltámos a sentar naquele anfiteatro, conhecemos o nosso verdadeiro professor. Esta foi a minha praxe. Não doeu, não me humilhou e ainda hoje a trago nas minhas memórias, tão bem ela representou os árduos anos e as personagens docentes com que haveria de privar na minha vida académica.

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da inveja

 

eu se fosse poeta queria ser o José Gomes Ferreira.

é preciso um talento especial para ser capaz de dizer coisas lindas sem que pareçam um naperon de palavras

 


foi por um acaso,

Vejo-o num vislumbre em local azafamado de passagem pública. Eu encostado a uma roulotte, a sorver um café de paragem rápida, ele seguindo por entre a turba, em passo apressado, agora quase cruzando na minha frente. Vem de olhos obsessivamente fixos no diante. Pode ser modo de andar, ou modo de esquivar. Eu ali, olhando-o, sem saber se quero que ele me olhe, ele escondendo o meu vulto já quase no través do olhar. Mais um passo e seguimos ambos despercebidos. Mas nesse cruzar sou eu que entro na liça, sou eu que sou convocado a chamar por ele, ou a não o fazer.

Dou um passo em frente e estanco-lhe a passada. Olha para mim, primeiro surpreso, depois num afável sorriso. Rolamos uns minutos de conversa. Depois, logo, logo, os tons de sempre, dissonantes , guerreando as distâncias enormes que nos separam, os estilos de pose de um lado e as irritações de o sentir do outro, o culto das convenções contra as convenções do culto. Por fim desistimos, cumprimentamo-nos e eu deixo-o seguir. Ofego, como se tivesse acabado de fazer uma maratona. Lido mal com a hipocrisia dos outros, e com a minha, quando me excedo em achar-lhes isso mesmo e ainda assim  me conter de o dizer. Não devia ser assim. Deveríamos herdar de criança a frontalidade e a sinceridade de poder dizer, quando nos apetecesse, “olha, afinal já não gosto de ti, já não sou teu amigo”. E pronto, sem mais coisas de fazer de conta.

Mas fiz bem, naquele momento, em não ignorar quem me era amigo, não é assim que se faz quando se é adulto. Sei agora que, quando ele se cruzar comigo e sensatamente fizer cair o seu olhar, desviando-me, eu deverei fazer o mesmo. Já não haverá equívocos. Reagiremos como adultos, cada um tomando vantagem de si. A única diferença é que ele sentirá o desconforto de ter de evitar encontrar um ‘amigo’ e eu já deixei de ter ‘amigo’ de que tenha de me escusar.


quando o virtual e o real se encontraram os dois à esquina

Para que conste neste ‘diário de bordo’, para registo futuro:

ps3Corre o ano de 2013. Num lar português um jovem (de seu nome Miguel Faísca) inscreve-se num campeonato de corridas on-line , o “Gran Turismo”. Um de entre milhões, este jovem vai galgando lugares, sentado no seu sofá, até se sagrar um dos vencedores do evento. Até aqui nada de estranho, afinal falamos da popular Playstation.

Só que esse mérito na jogatana deu-lhe acesso a um programa europeu de captação de talentos, promovido pela Nissan, o “GT Academy”, que … venceu também.

Seis meses depois (!) ganha as 24h do Dubai sentado ao volante de um Nissan 370Z Nismo, na classe SP2. E repito, guiando isto:

nissan30znismo

Poderia lá haver melhor sinopse dos tempos loucos que vivemos!


pensamento lapaliciano da manhã

Os dias passam, inexoravelmente e amanhã haverá desafios que se esfumaram, novas oportunidades para interpretar e nada, absolutamente nada, por mais que a dormência da rotina nos queira fazer sentir o contrário, permanecerá na mesma.


da infância de um povo

Dantes davam-se ícones ao Povo, valores que (n)os ocupassem, que lhes atenuassem os sacrifícios e os desviassem das malvadezas da vida. Esta última semana, a forma como todo um povo enlutou um homem do futebol, reclamando-o celestial, injuriando quem lhe apontasse outras marcas (fraquezas) que não o pontapé divino e sucumbindo-se na mágoa como se lhes tivesse finado o mais próximo dos parentes, vem provar que há uma inquebrável herança do passado que, apesar da democrática berraria e esbracejar que nos habituámos a derramar, ainda não nos despiu a pele. E, enquanto tal, continuamos abstrusos cordeiros, já não de alguns guardadores do rebanho, mas de nós mesmos, enquanto rebanho mugente.


(o ano) das palavras desidratadas

Sim, as palavras são o maior instrumento da liberdade. Sim, há nelas formas mais decorosas e cuidadas e outras que as vestem mais descontraidamente; não as julguemos por isso. Mas acima de tudo as palavras são o magma onde se misturam as nossas ideias e onde cresce latejante o maravilhoso cosmo da razão, das emoções e da iluminação humana.

Mas também podem ser quase nada, um mero acidente hieroglífico, um botão que se carrega, cada vez mais isso, como um tossir numa sala cheia de gente a dar sinal de presença. Pois assim tenho para mim, que o neste ano me foi correndo pelos olhos, pouco mais foi que uma alterosa enchurrada de palavras, muitas, descuidadas, mal-vestidas, uma imensidade de vocábulos e ditos de autores desconhecidos encaixotados em mensagens repetidas até á exaustão, perdidas do dono e com significados tão gastos que encontrar nelas uma ponta de humanidade, apesar da beleza e da bondade que apregoam, foi tarefa para que fui desistindo.

As redes sociais, em particular, trouxeram-nos esta destreza nas teclas, e com ela audiências para que nunca fomos preparados. O estilo espontâneo, lazeirento, de uma agradável e descontraída conversa de ocasião à mesa d’entre amigos, agora, irradiado pelos quatro cantos da Internet, torna-se desprovido de sentido para quem com ele não convive presencialmente. Como todos os novos hábitos é preciso que se lhes encontrem novos modos, isso a que uns chamarão de preceitos de educação, outros apenas cortesia e que outros, no seu direito, pouco mais acharão que um dispor pretensioso.

Acho eu (e muito achamos agora todos, todos os dias, sobre tudo), que neste advento das redes sociais, em 2013, a palavra foi usada e abusada, não com um propósito, mas apenas para se juntar a um ruído em massa, a um processo de amplificação de estados de alma, de apetites para o almoço, de achares sobre o que o vizinho professa, e onde nunca faltam uns pozinhos da hermenêutica astrológica sobre o bem viver. Habituámo-nos à verve, mas sem dela cuidarmos. Emitir tornou-se um propósito em si, um falar sem carga, não mais que uma estranha tentativa de fazer prova de vida ainda que para isso utilizemos avatares que nos desmaterializam.

Desejo assim para 2014 uma maior saúde às palavras. Que elas não sirvam apenas para largar rasto e lastro pela internet fora e que se (res)guardem para quando nos visitarmos. Que os vossos pensamentos, fantasias, estados de espírito, aspirações, se possam vestir com delas, com o prazer de quem visita um amigo e a solenidade de quem se dá a mostrar. Venham como quiserem, mas tragam-se nas vossas palavras. Ou nos silêncios que só as grandes amizades conseguem suportar. Mas não preciso que um amigo me rumoreje as manchetes do correio da manhã ou traga na algibeira os aforismos do Nietzsche para enchermos um serão.

Que em 2014 as palavras possam continuar a ser sussurradas, sem pressas, sem imitar um autor desconhecido, sem terem de repetir algo só porque entre nós o silêncio incomoda. Que nunca precisemos de usar as palavras virais que tanto proliferaram por aí. Que saibamos cuidar dos silêncios que contam as palavras que já não precisam ser ditas, mas sobretudo que nunca deixemos de ser amigos por falta das palavras que ainda estão por inventar entre nós.

 


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