(o ano) das palavras desidratadas

Sim, as palavras são o maior instrumento da liberdade. Sim, há nelas formas mais decorosas e cuidadas e outras que as vestem mais descontraidamente; não as julguemos por isso. Mas acima de tudo as palavras são o magma onde se misturam as nossas ideias e onde cresce latejante o maravilhoso cosmo da razão, das emoções e da iluminação humana.

Mas também podem ser quase nada, um mero acidente hieroglífico, um botão que se carrega, cada vez mais isso, como um tossir numa sala cheia de gente a dar sinal de presença. Pois assim tenho para mim, que o neste ano me foi correndo pelos olhos, pouco mais foi que uma alterosa enchurrada de palavras, muitas, descuidadas, mal-vestidas, uma imensidade de vocábulos e ditos de autores desconhecidos encaixotados em mensagens repetidas até á exaustão, perdidas do dono e com significados tão gastos que encontrar nelas uma ponta de humanidade, apesar da beleza e da bondade que apregoam, foi tarefa para que fui desistindo.

As redes sociais, em particular, trouxeram-nos esta destreza nas teclas, e com ela audiências para que nunca fomos preparados. O estilo espontâneo, lazeirento, de uma agradável e descontraída conversa de ocasião à mesa d’entre amigos, agora, irradiado pelos quatro cantos da Internet, torna-se desprovido de sentido para quem com ele não convive presencialmente. Como todos os novos hábitos é preciso que se lhes encontrem novos modos, isso a que uns chamarão de preceitos de educação, outros apenas cortesia e que outros, no seu direito, pouco mais acharão que um dispor pretensioso.

Acho eu (e muito achamos agora todos, todos os dias, sobre tudo), que neste advento das redes sociais, em 2013, a palavra foi usada e abusada, não com um propósito, mas apenas para se juntar a um ruído em massa, a um processo de amplificação de estados de alma, de apetites para o almoço, de achares sobre o que o vizinho professa, e onde nunca faltam uns pozinhos da hermenêutica astrológica sobre o bem viver. Habituámo-nos à verve, mas sem dela cuidarmos. Emitir tornou-se um propósito em si, um falar sem carga, não mais que uma estranha tentativa de fazer prova de vida ainda que para isso utilizemos avatares que nos desmaterializam.

Desejo assim para 2014 uma maior saúde às palavras. Que elas não sirvam apenas para largar rasto e lastro pela internet fora e que se (res)guardem para quando nos visitarmos. Que os vossos pensamentos, fantasias, estados de espírito, aspirações, se possam vestir com delas, com o prazer de quem visita um amigo e a solenidade de quem se dá a mostrar. Venham como quiserem, mas tragam-se nas vossas palavras. Ou nos silêncios que só as grandes amizades conseguem suportar. Mas não preciso que um amigo me rumoreje as manchetes do correio da manhã ou traga na algibeira os aforismos do Nietzsche para enchermos um serão.

Que em 2014 as palavras possam continuar a ser sussurradas, sem pressas, sem imitar um autor desconhecido, sem terem de repetir algo só porque entre nós o silêncio incomoda. Que nunca precisemos de usar as palavras virais que tanto proliferaram por aí. Que saibamos cuidar dos silêncios que contam as palavras que já não precisam ser ditas, mas sobretudo que nunca deixemos de ser amigos por falta das palavras que ainda estão por inventar entre nós.

 

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