quando as praxes académicas não eram provas de acesso para os ‘fuzileiros’

Cada um dos três anfiteatros do Técnico, no pavilhão central, são salas austeras, carregadas com a patine das madeiras escuras envelhecidas e um palco a toda a largura onde o douto professor, dessa posição central, dissertará nas suas digressões matemáticas durante uma intensa hora de palestra. O edifício espartano do estado novo que as aquartela ajuda ainda mais à interiorização de um sentimento de reverência nos atemorizados caloiros, pouco preparados para lidar com espaços tão impregnados do simbolismo do saber, de um estatuto académico que ainda não tomam por seu, mas sobretudo carregando um humilde temor pelos anos e anos de estudo árduo que se avizinham.

Cerca de duas centenas de alunos, à hora exacta, ainda desconhecidos uns dos outros, não disfarçando o orgulho que trocam entre olhares, aguardam num silêncio quase surpreendente. Subitamente bate a porta, enorme, de madeiras maciças, com um estrondo que os pobres ferrolhos não conseguem atenuar. O professor, um indivíduo magro, nada vetusto, sem uma batina sequer e com gestos acanhados, avança para o palanque. Corre por instantes um incontido sussurro de espanto. Sem uma pausa sequer, rasga-se um rugido guinchado que inunda o anfiteatro; dois quadros enormes, ligados por arcaicos sistemas de roldanas, trocam-se num movimento vertical. O professor, sem uma palavra de acolhimento, vira-lhes as costas e numa azáfama solitária começa a escrevinhar rocambolescas equações diferenciais pelo enorme território de ardósia. Meia-hora depois, não disfarçando um pequeno arquejar de tédio, detém-se. Atrás dele espirais de giz cruzam em todos os sentidos um quadro gigantesco com mais de 8 metros de comprido.

“Quero acreditar que vós, os venturosos que aqui chegaram, todos conhecerão os lagrangeanos.” Não o dizia interrogativamente, aliás, não mostrava qualquer intenção de aquilatar a base de conhecimentos daquela assembleia de neófitos aprendizes. Era apenas o seu modo de resumir as centenas de equações, algumas das quais atravessando várias linhas do quadro, que nós, pobres calouros, ainda fazíamos por passar a limpo para os nossos cadernos até aí imaculados. Aguardou alguns segundos. Nada se ouviu da assembleia. Um silêncio profundo que ele aguardou com indiferença, para acabar por quebrar num lamento sussurrado, ainda que suficientemente audível, com um resignado e triste “cada vez me chegam piores”. Depois, alegando qualquer coisa como não poder pôr em causa o extenso e indispensável programa curricular para andar agora a fazer revisões de matéria que um aspirante a engenheiro já deveria acomodar na sua sólida bagagem de estudante, empurrou para cima, num movimento brusco e insuspeitavelmente enérgico, o pesado quadro que andara a escrevinhar. Novo estrondo, como que a dar o mote para virarmos mais uma página. Num ápice, o outro quadro enorme , num descer meio bamboleado, trocava-se e substituia o que antes estava por baixo.

A segunda metade da aula passou-se mais uma vez em silêncio. O Professor de costas, anotando, linha após linha, um rol interminável de bibliografia. Laboriosamente escrevia, de cor, o título da obra – na maior parte das vezes assustadoramente ininteligível – e o seu autor, recomendando, conforme se dava o caso, as edições e os anos mais aconselháveis. As mãos doíam-nos de tanto escrevinhar, a tinta saia-nos das canetas escorregadas em suor e os cadernos que aprontáramos para o semestre levavam já páginas e páginas lavradas de coisas atemorizantes. Concluído o rol, virou-se com gestos pausados e indiferentes para nós e pela primeira vez nos encarou, se é que o facto de simplesmente nos fitar de forma abstracta e enfastiada pode levar a este excesso de linguagem. Recomendava-nos que tomássemos conhecimento desta bibliografia, pois que sendo certo que não era matéria que integrasse o programa que viria a tratar nesta cadeira, não a recomendaria como estranha aos seus discentes, pelo menos para aqueles que pelo menos aspiravam poder acompanhar as suas aulas desde o início. E isto porque, o que ali fizera o favor de nos sugerir, era o que afinal qualquer candidato a licenciado àquela prestigiosa casa do saber, deveria trazer já no seu bagagem de conhecimento. No fim saiu, ao toque da campainha, com o mesmo rigor cronométrico com que entrara. Nem um olhar, nem uma hesitação, a aula havia terminado.

Só na semana seguinte, quando ainda mais minúsculos e atemorizados nos voltámos a sentar naquele anfiteatro, conhecemos o nosso verdadeiro professor. Esta foi a minha praxe. Não doeu, não me humilhou e ainda hoje a trago nas minhas memórias, tão bem ela representou os árduos anos e as personagens docentes com que haveria de privar na minha vida académica.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: