Monthly Archives: Julho 2014

(des)legados

Reavivo um apontamento que não cheguei a publicar e que aqui teria guardado poucos dias antes da minha avó partir – nunca chegou a fazer 102 anos – e acrescento-o com um novo parágrafo, neste tempo já tão para além da sua morte.

Quase 102 anos e sempre a vir ao de cima, com aquele fulgor de sobrevivência que é o instinto admirável dos centenários. Mas desta vez o ânimo que lhe vem das palavras já não corresponde ao que lhe vemos no corpo. Não era suposto que assim fosse, nunca foi assim. Ainda hoje, já adulto, continuava a acreditar que ela tinha a capacidade extraordinária de determinar a sua própria mortalidade, de enganar com o seu sorriso macio a própria condição efémera do corpo. Mas desta vez não, está mesmo indo, serena, terna, consciente, feliz, rainha da vida. Não há dor, mas há qualquer coisa da minha infância que me percorre de espanto: afinal, se ela parte, afinal também se morre. Há qualquer coisa que sobrava da minha infância que se tornou de repente uma mágoa inverosímel: afinal, se também ela parte, afinal também se morre. Afinal.

Tem de haver um sentido para um sentido que nunca antecipei. Será tudo isto uma espécie de caixa de almas com lotação limitada? Para onde vão aqueles que partem, de onde vêm aqueles que chegam? Pode haver nisto, nesta torrente de gente, também aqui a dimensão do infinito, ou estará a minha avó, nesse seu ir tão avelado, apenas a deixar-me uma vaga, um lugar que me vai cedendo nesse espaço avançado da vida para onde a idade insiste em levar-me? Será isso, será isto, ela a libertar o seu lugar para eu, pouco-a-pouco, poder eu ir desembrulhando o que me oferece, e assim me ir desembrulhando, agora eu, correndo sobre este fio do tempo que é a vida que me falta?

Escrevinhei em tempos no voar do facebook que “na minha família os homens morrem cedo e as mulheres eternizam-se“. Fados diferentes esses que neles os fazia ávidos para se cumprirem no que lhes faltava e  a elas darem-se ternas nessa pequena eternidade que lhes bastava. Nesta pele que sinto por dentro tenho escrito o destino dos homens da minha família. Mas não herdei do homem de quem nasci a força de fazer gigante o tempo de que disponho, que é assim que o recordo, fincado com os dois pés em tudo o que fazia da vida, engrossando-a, enquanto  ela, em cada dia, cada segundo, por ele avançava tão rápido.

Por isso, um dia, partirei sem nunca ter usado esse lugar da longa e terna velhice que a minha avó me deixou, e sem nunca ter aprendido com o meu pai que à vida que tem pressa se devem pedir contas todos os dias. Um dia, simplesmente, irei. Mas incompletamente.


paris texas

Há filmes que são indiscerníveis da sua banda sonora. Que me lembre (e este ainda recordá-los selectivamente é o destaque que os diferenciará), foram três ou quatro, todos mais lá para o lado da minha juventude. De todos comprei o album com a banda sonora, eu que era pouco dado a gastar dinheiro em vinilos.

Ouvi-o obsessivamente durante anos, a sós. Era o meu album de exercitação para alcançar aqueles momentos melancólicos que por razões que desconheço gostava de cultivar no final da minha adolescência. E tantas foram as vezes que acabei por estabelecer que no Paris Texas é a música que vemos e que o filme apenas existe para ajudar a olhá-la. Era uma música com carne, com vida, com feridas, tão fácil de tomar para nós que qualquer imagem (cinematográfica) que se lhe associasse, por mais extraordinária que fosse (e era), era apenas ornamental.

Vem isto a propósito da morte, ontem, de Harry Dean Stanton, o actor do filme, ou melhor, o figurante principal da sua melodia. Já o Ry Cooder, imortal, ainda por cá anda, tal como a nostalgia dos seus acordes permanece cavada em mim.

Post-Scriptum de 15 de Julho: No ‘recato’ do facebook chama-me a atenção o meu amigo Duarte para a indesculpável omissão à Nastassja Kinski. Aproveito para esclarecer que não só não está omissa como sobre ela recai o meu arquejo final do texto, onde, de modo recatado, suspiro pela … “nostalgia dos seus acordes”


do onanismo da auto-citação

O silêncio, a ausência, a saudade, tudo o que vive calado, parece sempre maior quando olhamos demasiado para ele.


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