Monthly Archives: Setembro 2014

do outono e dos arrepios da vida

Um destes dias volto a afrontar a caneta, mesmo que dela nada se queira brotar. Emudecer é um aparente sentimento outonal, uma meia estação, um estado gracioso entre coisa nenhuma onde apenas nos sentimos bem. Mas as folhas não se suspendem na eternidade ao cair, o céu não se traça pelo ano inteiro com abertas de sol enfeitadas com arco-íris, os pássaros não chilreiam melodias no inverno. Assim também nós não calamos para sempre, porque nunca, nada, teremos para dizer. Esse nada-fazer nada-mudar é um estado transitivo que se pode transformar num ardiloso lugar que nos aprisionará docemente numa interminável permanência. Entretanto inexistimos, de braços gonzos e sorriso indolente, num sempre que nos amarra vontades.

Ai a vontade, essa puta preguiçosa, como se nos pudesse fazer saciar apenas no desfrute do prazer. Como se algo a pudesse qualificar que não apenas a cósmica razão de nos fazer sentir vivos, seja isso bom ou mau, ou que doa. Não há prazer na genuína vontade, mas apenas a vontade de ser homem. Poderia ser sempre assim, nessa tranquilidade de ouvir passarinhos, porque o outono (das emoções) é obscenamente jovial, é ser sem ter de ser, é o deleite sem que nada por ele tenhamos de remunerar, como se, o sentirmo-nos bem, enquanto estado de alma ascendendo à eternidade, fosse algo que quiséssemos habitar sem contraposto, e sem carne. E tantas vezes, tantos de nós, fingimos nele a nossa longevidade sem dele nos tentarmos a sair, assim, desistidos, levando-nos a habitar um outono bucólico como se um intervalo de coisa nenhuma, sem nós, sem nada, sem coisa alguma que nos importe ou incomode.

Que venha o inverno, e o verão, e todas as estações que dentro de nós trazem a exaltação, o desconforto, o desafio e a superação, essa complexa amálgama de humanidade que nos grita que risquemos, com arrepios de vida, na cal branca, “eu passei por aqui … mas já cá não estou”.

(nota-se muito que tenho andado a estucar paredes?)

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