Monthly Archives: Outubro 2014

Para quê inventar se não for o implausível?

sotao

Um texto que nunca chegou a ser escrito, uma tela velha de branca, um naco de madeira sem um jeito de formão, não deixarão de ser o que sempre foram. E sendo isso, nesse estado óbvio e paralisado do que não lhe fizemos, são também a prova do que nunca serão. Quantos ventres de destinos murchamos de cada vez que simplesmente nada fazemos? Quantas ideias de futuro assassinamos por minuto até que nos sobre apenas este, o único, o provável, aquele que nada pede mais que esta preguiça ignava que nos carrega por diante? Para quê mais, para quê mais que um texto que nunca chegou a ser escrito, para quê um traço de tinta numa tela velha que há de envelhecer ainda mais sem que ninguém se importe, para quê inventar afinal – e tanto trabalho, tanto barulho – se não for o implausível?

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das coisas da natureza que a natureza do homem não percebe

Os vícios dos tempos que correm empurram-nos facilmente para gritar culpas ao homem do lado, seja ele o vizinho ou o presidente da câmara de Lisboa. Que as terão certamente, culpa disto ou daquilo, em parte ou no todo. Mas esse mote de acusação, remete-nos sempre para uma culpa coetânea, um acontecimento presente, uma perda de profundidade crítica. Servirá para discutir e acusar a política certamente, essa política mesquinha dos dias que correm que apenas se debruça sobre o que corre nos dias.

Mas no caso das feridas que a natureza nos mostra, quando ela uma e outra vez rasga vontades pela terra adentro, choca-me ver-nos entretidos nesta dança do costume, tão ensurdecidos pelo barulho destes vozeares que nem nos detemos sequer a auscultá-la, com a distância e a reverência que ela nos merece, esse berço de cada um de nós, do nosso bairro, da nossa cidade, mas também do nosso mundo, e do de todos os nossos antepassados que por cá passaram e de mais aqueles que queiramos nós ainda nele hão-de nascer. Não sermos capazes de compreender e respeitar a natureza, entretidos nesta nossa arroganciazinha de ditar sermões políticos e outros ditames, daqui desta nossa caixinha minúscula de tempo onde cabe a nossa vida, faz-nos tão insignificantes e incompetentes quanto a proporção do tempo geológico tem sobre a nossa efémera condição mortal.

E posto isto, deixo aqui uma foto:

marquês

Sabeis o que retrata? Exactamente, o Marquês de Pombal e, por trás, a zona que virá a ser o Parque Eduardo VII. Agora notem, há um lago, um lago tão grande que até barcos à vela nele aportavam. Isto era assim nos anos 30 (?) do século passado, algo que certamente os nossos avós nos poderiam contar. Para onde foi essa água? Não é preciso ser um especialista em hidrografia para perceber que a Av. da Liberdade já foi leito de um rio que corria entre duas colinas e que certamente desaguaria no Terreiro do Paço, e que o mesmo se passaria na Av. Ceuta que tinha em Alcântara o seu desaguar. Claro que a natureza terá mudado de vontade aqui e ali mas o resto fomos nós a mudar-lhe a vontade. Lembro-me do meu pai contar que na Av. da Liberdade haviam prédios com bombas na cave a bombear continuamente. A água que não vemos hoje, a água que retirámos, envergonhada de ser impedida na sua natureza, escondeu-se, debaixo de terra. E o que fizemos nós, agora que já podíamos construir os nossos caixotes de cimento sobre os leitos que lhe conquistámos. Criámos diques subterrâneos. As entranhas dos edifícios com que rasgámos terra adentro, as cofragens dos parques de estacionamento subterrâneos, a impermeabilização dos solos com camadas sobre camadas de alcatrão e cimento, lá fomos assim erigindo obreiramente muralhas debaixo da terra, para que nem aí a água se fizesse livre. Mas a água que de algum lado virá para algum lado terá de ir, pois essa é a lei da natureza que aparentemente nos achamos capazes de contrariar.

Quando vejo o tipo de reacções a estas recentes inundações extenuarem-se nas habituais acusações sobre a obra que não foi feita ou que foi mal feita é como se estivesse a olhar de cima para uma manifestação de formigas afadigadas a discutirem trilhos, enquanto um tronco de embondeiro, indiferente, lhes está prestes a cair em cima, tão distantes estamos já desta terra que nos acolhe. Lembro-me que há uns meses, na TV, eram então as trágicas reportagens sobre a costa que o maldito mar levara, e em directo, enquanto se viam ao fundo camiões a despejarem milhares e milhares de euros de areia nas praias, era entrevistado em primeiro plano um pescador que lá ia dizendo que aquilo era gente que não percebia do mar, pois que “o que o mar quer o mar leva e traz”. Mas não me pareceu que o entrevistador estivesse sequer atento às suas palavras simples, ele ali como um ornamento exótico do plano de fundo onde os ridículos camiões espojavam os seus baldes de terra, obstinados em julgar que a natureza é coisa que também se pode ‘arranjar’, enquanto o mar, compadecido, do longe do horizonte, sorria.


de quem eu digo que sou

Somos feitos de fragmentos que disparam em todas as direcções, pequenos estilhaços do nosso comportamento, ainda que depois teimemos em os alisar numa agradável ilusão de personalidade. De nós partem muitas latitudes mas, como sempre, teimamos em achar que caminhamos numa única (e honesta) direcção. Mas não há em nós o bem ou o mal – há o bem e o mal. O resto somos nós a fingir-nos de nós.

É por isso que nos é mais fácil achar sobre os outros, porque deles apenas reunimos os fragmentos do que são, olhando-os interrompidamente, sem essa ilusão virtuosa que armamos dentro de nós para não nos sentirmos insustentavelmente disformes. Neles julgamos comportamentos, em nós justificamos caracteres. É desigual.

Há quase 10 anos ensaiei exactamente isso, pintar-me com fragmentos muito antigos, da quase infância. Pequenos episódios avulsos entre a honra e a vergonha. Experimentei-o aqui:

#1

Repartíamos o orgulho de termos tirado a melhor nota no exame nacional. Nada mais nos unia. Ele deslocado do Douro interior e em vias de voltar para ajudar o pai nas vindimas, eu apenas num intervalo da vida aburguesada da cidade. Estendia a oportunidade, sugerindo que ainda assim se demoraria mais dois dias pela capital, que mal conhecia e que bem podíamos … quando me pediu o telefone pensei que não tinha nenhum sentido que nos viéssemos a encontrar, mas não lho disse. Nem o incómodo de lhe dizer isso, com a sinceridade possível, lhe concedi. Dei-lhe o primeiro número que me veio à cabeça.

#2

Na frente corríamos todos que nem loucos. Quando o vi atrasar-se, com um corpinho ainda mais miúdo que o meu e começar a ser envolvido por aquela multidão furiosa estaquei o passo e fiz-me ao seu lado. Ainda alteei a voz enquanto o escondia por trás das minhas costas … depois levei uma paulada na cabeça e passei a gozar da fama dessa ousadia.

#3

Por duas vezes me perguntou se aquela revista ordinária que estava caída no quintal era minha. Por duas vezes lhe disse que não. E avançava que tal descuido e com irmãs mais novas por ali sempre a brincar … mas eu mantinha que não. Sabia as páginas quase de cor. Nunca me ocorrera que pudesse rebolar do telhado para onde a tinha atirado. Por duas vezes me perguntou e por duas vezes o neguei. Neguei-me. A fúria da minha sexualidade adolescente tornou-se então uma prática obscura a que eu me condenei.

#4

Escutava no quarto ao lado o zurzir das chineladas. Ainda me corriam as lágrimas da biqueirada que ele me enfiara nas costas. Tudo começara como sempre, ele a fazer-se de irmão mais velho e eu a negar-lhe o estatuto. Ouvia-o agora em choros aflitos, ali ao lado e ainda me ocorreu intervir, dizer que a culpa também era minha. Em vez disso deixei-me ficar, consolado, com um sorriso traidor.

#5

Quando jovem tive um barco à vela. Aparelhei-o e desaparelhei-o vezes sem conta. Numas ainda zarpei, noutras fiquei a olhar o mar e fingi ter perdido a palamenta.

Vermo-nos em pequenos fotogramas, sem os alisar e retocar, é um exercício duro. O mesmo exercício que praticamos (destinamos) tantas vezes aos outros.


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