de quem eu digo que sou

Somos feitos de fragmentos que disparam em todas as direcções, pequenos estilhaços do nosso comportamento, ainda que depois teimemos em os alisar numa agradável ilusão de personalidade. De nós partem muitas latitudes mas, como sempre, teimamos em achar que caminhamos numa única (e honesta) direcção. Mas não há em nós o bem ou o mal – há o bem e o mal. O resto somos nós a fingir-nos de nós.

É por isso que nos é mais fácil achar sobre os outros, porque deles apenas reunimos os fragmentos do que são, olhando-os interrompidamente, sem essa ilusão virtuosa que armamos dentro de nós para não nos sentirmos insustentavelmente disformes. Neles julgamos comportamentos, em nós justificamos caracteres. É desigual.

Há quase 10 anos ensaiei exactamente isso, pintar-me com fragmentos muito antigos, da quase infância. Pequenos episódios avulsos entre a honra e a vergonha. Experimentei-o aqui:

#1

Repartíamos o orgulho de termos tirado a melhor nota no exame nacional. Nada mais nos unia. Ele deslocado do Douro interior e em vias de voltar para ajudar o pai nas vindimas, eu apenas num intervalo da vida aburguesada da cidade. Estendia a oportunidade, sugerindo que ainda assim se demoraria mais dois dias pela capital, que mal conhecia e que bem podíamos … quando me pediu o telefone pensei que não tinha nenhum sentido que nos viéssemos a encontrar, mas não lho disse. Nem o incómodo de lhe dizer isso, com a sinceridade possível, lhe concedi. Dei-lhe o primeiro número que me veio à cabeça.

#2

Na frente corríamos todos que nem loucos. Quando o vi atrasar-se, com um corpinho ainda mais miúdo que o meu e começar a ser envolvido por aquela multidão furiosa estaquei o passo e fiz-me ao seu lado. Ainda alteei a voz enquanto o escondia por trás das minhas costas … depois levei uma paulada na cabeça e passei a gozar da fama dessa ousadia.

#3

Por duas vezes me perguntou se aquela revista ordinária que estava caída no quintal era minha. Por duas vezes lhe disse que não. E avançava que tal descuido e com irmãs mais novas por ali sempre a brincar … mas eu mantinha que não. Sabia as páginas quase de cor. Nunca me ocorrera que pudesse rebolar do telhado para onde a tinha atirado. Por duas vezes me perguntou e por duas vezes o neguei. Neguei-me. A fúria da minha sexualidade adolescente tornou-se então uma prática obscura a que eu me condenei.

#4

Escutava no quarto ao lado o zurzir das chineladas. Ainda me corriam as lágrimas da biqueirada que ele me enfiara nas costas. Tudo começara como sempre, ele a fazer-se de irmão mais velho e eu a negar-lhe o estatuto. Ouvia-o agora em choros aflitos, ali ao lado e ainda me ocorreu intervir, dizer que a culpa também era minha. Em vez disso deixei-me ficar, consolado, com um sorriso traidor.

#5

Quando jovem tive um barco à vela. Aparelhei-o e desaparelhei-o vezes sem conta. Numas ainda zarpei, noutras fiquei a olhar o mar e fingi ter perdido a palamenta.

Vermo-nos em pequenos fotogramas, sem os alisar e retocar, é um exercício duro. O mesmo exercício que praticamos (destinamos) tantas vezes aos outros.


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