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desta janela (de 2014) por onde olho

As pessoas vivem cada vez mais à janela. Só assim compreendo que este ritual a que nos entregamos no balanço do ano assuma tão veementes tonalidades trágicas, e para isso quase sempre aludindo ao que os outros nos infligiram, ao que eles são, ao que disso resultou em perdas no nosso bem-estar e exaltados e indignados nos ocupamos a fazer-nos ouvir sobre o tanto mal que nos aconteceu. Quase nunca uma palavra sobre nós, um registo do que tenhamos sentido, do que tenhamos feito acontecer, e em tantos dias de balanço nem uma palavra sobre esse outro lado da vida que nos vive por dentro.

Se um dia lá para diante nos pudesse revisitar diria que este teria sido um ano sem espaço para o surpreendente, sem magia, sem ambição, sem sementes para amanhã, um ano de sobrevivência apenas, um ano de desalento e desencanto, onde nos prestámos apenas para vítimas do mal dos outros. E de tão presos a este penar da pele, envoltos neste negrume que nos rodeou, não nos sobra nada da alma, que de tão fatigada de lamentações, já sem fulgor para nos reconstruir, com pouco fica para tomar para si: esquecem-se os momentos especiais com os nossos filhos, omite-se o íntimo com os nossos amigos, ignora-se o alegre com a nossa família, nem um extraordinário gesto de um colega ou mesmo de um desconhecido sabemos guardar e nada, absolutamente nada, nos espantou e interrogou, nada de novo ou digno de ser registado neste acervo do que fomos em 2014.

Se um dia nos revisitássemos neste ano que há-de ser longínquo pouco mais encontraríamos que uma turba de almas penadas, mas sem alma, e já só mesmo penadas. Que de pena se encheu o ano, pena de nós, pena dos outros, pena do que os outros nos fizeram a nós, pena que tudo não pudesse ter sido diferente. Olho em meu redor e apenas sinto frio e amargura, incómodo e desespero, raiva e reclamação. Consentiria até nisso, que todos nós, os desta alma lusitana, temos isso de poetas, o de nos cozinharmos em sentimentos tristes e nostálgicos. Consentiria isso também, pois não posso ignorar a degradação das condições económicas que tanto importam. Mas foi só a carne que nos trouxe até aqui, este pobre corpo que se envelheceu por mais um ano, de mais nada nos fizemos acompanhar?

E foi só nos outros que entregámos os nossos desígnios, nada mais construímos sobre os nossos pés, a nós não entregámos nenhum papel, em nenhum lugar de nós que vasculhemos encontraremos uma partícula, um acontecimento imprevisto num minuto breve que seja, que nos deixe moderadamente felizes ou orgulhosos? Não que ‘estar bem’ não seja uma condição capital para nos ‘sentirmos bem’, mas confesso que me preocupa quando isso, essa acepção exclusivamente física da felicidade, se torna o fundamento do nosso (des)contentamento ou, no mínimo, daquilo que não sabemos descrever mas que nos deveria servir para os balanços da vida.

Este ano, também olhando para mim, fez-me perceber que as pessoas vivem cada vez mais à janela, como se fosse do lado de fora que pudessem encontrar o que fez falta à sua vida.

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