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Os rios contados devagar por esta criança aos adultos

rioGosto também muito dos rios. São eles que enchem os mares com as histórias que trazem da terra. E os rios são todos diferentes, e todos os rios são diferentes em cada curva. Os rios não têm pais nem mães e por isso não sabem que se devem comportar sempre da mesma maneira. Eu gosto das coisas que nunca são iguais e que não têm vergonha de assim o ser. Os rios também são um bocadinho comilões e no inverno engordam muito, e nós ficamos a julgar que eles são patetas mas se calhar é porque no verão, como está calor, não podem comer tanto. Os rios mais bonitos são os azuis, mas isso é porque estão estragados. Se não estivessem estragados traziam com eles a terra e restos de plantas e sementes e levavam tudo isso para os peixes no mar poderem comer de manhã quando acordassem e tivessem fome, e por isso deviam ser verdes. As pessoas que julgam que os rios sujos estão estragados não sabem que os rios são quem leva a comida aos animais que vivem no mar, e se calhar até acham que os animais também deviam ser todos da mesma cor e todos bonitos. Os rios são muito importantes também porque fazem umas grandes barrigas e os homens podem tirar de beber das suas margens, mas às vezes não gostam que lhes impeçam caminho. Outras vezes dançam de alegria com a chuva que os molha (os rios gostam muito de chuva, ficam mais mexidos quando a sentem e até parecem maiores, porque a alegria faz os rios parecerem maiores, como as pessoas) e então os homens fazem muros e prendem-nos em poças muito grandes por onde eles não podem passar. E quando os rios lá chegam vão perdendo as forças e desistem e depois ficam ali à espera e vão ficando, e ficando, até que alguém deixe passar um bocadinho deles – qualquer bocadinho já é bom, mas qualquer ribeirinho não é o rio é apenas a sua vontade presa de ser rio. Os rios vivem da liberdade de se desenharem pela terra fora fazendo de cada curva um acaso, e por isso os rios não gostam dos homens. Não é de todos, mas de quase todos, daqueles que não sabem olhar para eles. Os homens que prendem os rios não fazem ideia do que é ser rio, nem fazem ideia do que é ser homem e nunca experimentaram a liberdade de serem apenas o que quiserem ser, assim, como os rios.


de uma tela branca …

Em todos nós corre uma torrente artística. Na maioria das vezes um avisado pudor acaba por a conter da vista dos outros. Noutros casos, mais desafortunados, basta um pequeno clique para esbanjar essa deriva da criatividade em acidentes bem mais reprováveis. Normalmente isso ocorre com a idade. Os idos dos anos levam-nos a querer fruir do que não serve absolutamente para nada e, estranhamente, é daí que recolhemos o prazer. Admitamos que um qualquer indivíduo um dia se dispunha a pintar, não porque fosse dotado ou porque alguma vez pendesse para a realização artística, nem tão pouco porque já o tivesse previamente experimentado, mas apenas porque sim. O que normalmente o impedirá é a falta de balanço. Nada em seu redor estimularia a que esse excêntrico desejo passasse disso. Mas admitamos que subitamente acorda e vê na sua frente um tripé, uma tela em branco e uma caixa de óleos. E dia após dia, no acordar, a mesma imagem, sem nada já que o trave a desafiar razões, nem argumentos para deixar de as ter. Pois é …

2009
… um destes dias terá de ser.


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