Monthly Archives: Março 2015

da morte de um poeta

hoje morreu herberto helder

e mais 150 pessoas num avião despenhado nos alpes,

hoje morreu também o meu vizinho

e outros tantos milhões noutras ruas deste mundo.

o pesar pelo que nos é próximo é a mais aconchegante ilusão

que semeamos na tristeza,

para fazermos da morte coisa mais humana e ponderável,

sem esse seu angustiante fim infinito

que nunca saberemos conceber.

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do dia do pai e do dia em que as palavras o transformaram num enorme ruído

Nunca o percebi. Instruí-me numa profissão técnica, não era suposto ter de escrever tanto. Mas faço-o e fi-lo sempre. Mas custa-me a perceber. Outros com funções idênticas às minhas não escrevem nem pela metade. Mas talvez perceba. Há anos que me acompanha esta sensação de que a palavra, quando grafada, torna as afirmações mais verdadeiras, as sensações mais intensas, as ilusões mais honestas, e faz-nos melhores e maiores aos olhos de quem nos lê. Ficamos mais bem-parecidos e o que dizemos parece valer mais. Escreve-se, escrevo eu tanto, por isso? Creio que sim. Mas há um mistério curioso na origem deste exercício. O que durante anos escrevi de forma pública tinha um leitor destinatário. Eu. Durante mais de 10 anos, que são esses os anos que levo pecando neste exercício, sempre achei que assim feito, lendo-me a mim mesmo no meio dos outros, me fazia parecer mais belo e até, por culpa de me repetir nesta insaciedade da autoleitura, tornar-me apto a transformar passados, retocando-os na medida em que porventura se me parecessem mais entusiasmantes.

Depois apareceram as redes sociais e particularmente o facebook – destas todas, a única que integro – e descubro que afinal, a escrita, o que nos conduz a ela, ou melhor, o que nos leva a publicar aquilo que achamos, essa necessidade de, dizendo aos outros, parecermos mais belos e verdadeiros, afinal é um elixir da humanidade em geral e não apenas de alguns. Isso induz algo de extraordinário. Creio que nunca antes tanta gente terá valorizado o exercício da escrita. Tenho a certeza de que isso nunca aconteceu antes. E é ao mesmo tempo algo inusitado. Numa época onde nunca se escreveu tão mal, num tempo onde a vida se vive tão aligeirada das coisas que nos dão trabalho, escrever é um acto que deveria ser descartado. Mas não, afinal é um arcaísmo que, contra a natureza dos tempos, não só sobreviveu como se tornou hábito corrente.

Como digo, há nisso algo de extraordinário e de belo. Mas tem também os seus revezes. A palavra assim democratizada, tão profusa, esgrimida em tantas direcções amontoadamente, começa a transformar-se num enorme e indiscernível ruído. Antes, neste exercício entre o onanismo e a exacerbação das minhas memórias, quando derramava aqui alguma coisa, havia uma película mágica entre mim e o mundo que me trazia a sensação de que todos me escutavam (e tinha uma boa audiência para ajudar) num acomodado silêncio. Mas hoje, o que sinto é exactamente o oposto, é que todos me querem reclamar para seu leitor, e nisso sem tempo para me lerem. Existe uma competição exasperada pela palavra, cada um lançando-as, mais ou menos cuidadamente, aos outros. E são tantos, somos tantos, competindo entre este papel de autor e leitor, que a maior parte dessas palavras acaba por nascer morta, sem alguém que alguma vez as venha a ler. Como tudo o que é excessivo, também hoje, as palavras escritas em alvoroço, tecladas por milhões e milhões de dedos, tornam-se um desperdício, algo que afinal nunca chega a acontecer. Já não se escreve com a cuidada vaidade e orgulho de se poder vir a ser apreciado por alguém que nos lê. Escreve-se porque isso nos traz essa ilusão, e isso nos basta.

Durante esta década em que fui cultivando deleitosamente a prática da escrita, terei vertido porventura vários textos sobre o meu pai, um homem que me marcou profundamente e que tantas vezes, (de forma tão silenciosa que só muito mais tarde eu o soube reconhecer), influenciou os meus padrões de vida. Mas isso foi antes de perceber – tal como hoje vou lendo por todo o lado – que afinal ele era tão importante quanto todos os outros. Então escrevia-o porque poderia criar a ilusão de que nenhum outro poderia provocar em alguém aquilo que eu sentia pelo meu. Por isso, depois, agora, deixei de ter vontade de o ‘escrever’ aqui. Porque a intimidade com que lhe dedico a saudade e eterna admiração não se presta a comparações. E é por isso que agora, ao meu, o abrigo no silêncio.

As memórias do que nos é grato podem festejar-se com palavras, desde que haja quem as leia. Sobretudo desde que nós próprios consigamos pausar o suficiente para, com tranquilidade, os podermos saudar na escrita que lhes dedicamos. Mas no mundo de hoje somos todos tão sedentos de emitir que já não há quem nos leia, nem nós mesmos. Os pais, os nossos pais, não se podem trazer a esta competição absurda das palavras, porque são nossos e incomparáveis. E porque nunca iremos ser capazes de conceber que o nosso partilhe o mesmo pedestal de palavras com os outros. Mas sobretudo porque as memórias que deles guardamos merecem muito mais do que serem transformadas à nascença em cadáveres de palavras, amontoadas sem nunca terem sido lidas no ruído catatónico da internet.


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