Monthly Archives: Abril 2015

do improviso da idade

Quando nós crescemos, as coisas novas surpreendem-nos menos e algumas coisas velhas vão ficando esquecidas. Por isso nós gostamos cada vez mais das coisas que temos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, as coisas crescem connosco e cada dia passam a fazer mais parte de nós. Por isso os nossos amigos são cada vez mais os nossos amigos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, por vezes acordamos com nuvens. Depois sentimos que isso é porque estamos um pouco mais perto de algo e isso torna-nos ainda mais orgulhosos do que já andámos até aqui. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, somos mais descrentes e positivos, mais eufóricos e apáticos e vamos vivendo num estado de maior alternação, copiando a vida. Mas isso porque sentimos que lidamos com mais do que já somos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, olhamos para o que fizemos e às vezes pensamos que não fizemos tudo. Então deitamos a cabeça no colo de alguém, a costurar o tempo, não desistidos mas sem que nada mais importe … Do que aquilo que tu já sabes


das palavras naufragadas

Quando brancos matavam pretos eram racistas, pois eram. Quando pretos matam pretos, são agora xenófobos. Há um século quando um barco naufragou com 1.500 membros da elite social foi uma catástrofe tão grande que ainda hoje é persistentemente recordada. Nos últimos 15 meses morreram nas águas do mediterrâneo 4.500 pessoas, aquilata-se agora. Depois far-se-ão umas cimeiras e deixará de haver o antes e o depois dessas famílias inteiras que continuarão a afogar-se silenciosamente nessa quimera de um futuro impossível.

Malditas palavras. Tirem-lhes a culatra.


do mar cadáver

by Fernando Paula

by Fernando Paula

A semana passada fui ao deserto. Fiz o programa todo, com camelos, acampamentos e dunas. Hei-de trazer para aqui algo sobre isso, para registo póstumo. Mas por agora, como mera declaração casual, apenas se me oferece registar o seguinte: O deserto poderia ser como o mar, não fosse tão fatalmente preguiçoso.

Consigo olhar para o mar e sentir-lhe o humor, mais forte que o meu até. A serenidade, a euforia, a raiva, a exaustão, a temeridade, tudo no mar, alternante, é como em nós, mas em maior. O deserto é, sei-o agora, o que mais lhe está próximo mas, sem latitude nos humores, é dele embuste. Enfada-me o deserto, não por causa da areia e da forma como vagaroso brinca com as cores, que esse é o seu encantamento, mas pelo pouco que faz com ela.

O deserto é o mar, em defunto. Não há naquele horizonte adornado de cores melosas e curvas boleadas imprevisibilidade bastante para que lhe possamos inventar um futuro. Encarar o mar é olhar por diante, para a inquietude de amanhã, navegar na incerteza e se formos corajosos trazê-la até nós. Mas a contemplação do deserto, quieta, calada, cálida, enganosamente açucarada, nada traz por diante. Não há carácter, apenas uma hipnótica valsa de tons e distância parada para nos esconder o que é óbvio: ali nada mais há que ausência, essas memórias pútridas – ainda que belas – do que já foi.

Se chamo o mar para me chamar a mim, ao deserto deverei escondê-lo, sei-o agora, para que não traga essa parte de mim, a fingir-me contemplativo, a fazer-me olhado nas entorpecidas curvas que desenha no horizonte, imóveis, qual veneno de fazer calar vontades e adormecer o que por direito humano devo aguardar me possa calhar amanhã. Às dunas, belas ao final da tarde, olho-as por cima do ombro, vagaroso, como quem corre cortinas. Às vagas, essa vontade de água irrequieta, justamente por não poder saber o que lhes quero e o que elas de mim querem, prefiro fitá-las de frente, do lado da vida.

Além disso, confesso, não gosto de Tajine.


do ir e parar

Saltitamos por todo o lado. Por todo o lado brotam viagens maravilhosas que documentamos raivosamente com fotos e links. É agora aqui, e esbracejamos, que já depois será ali, de um algures de onde arremessamos mensagens e acenos ruidosos aos familiares e amigos, como se não o poder dizer fosse quase não ter feito acontecer. Os nossos corpos giram à velocidade da luz, irrequietos, sôfregos, como se tivessem medo de parar, como se estar parado fosse cada vez mais um local tenebroso que não sabemos habitar. Um sítio onde não está mais ninguém para além de nós. Um local, por isso, indizível.

Saltitamos por todo o lado, mas cada vez viajamos menos.


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