Kalithea Halkidiki poderia ser no hawaii mas é ali na grécia, mesmo ao pé da rússia

Esta minha fase profissional tem-me levado nos últimos anos a galgar território europeu. Embora os objectivos das viagens não me deixem grande folga turística trazem sempre consigo algo de exótico nestes destinos onde atraco: lahti, trondhein, lublin, ankara, zarautz, greenwich, … uma infinidade de paragens que certamente nunca visaria com propósitos turísticos, porque fora do gradiente comum, e que acabam por trazer uma percepção mais sincera e próxima dos países e dos povos.

Tinha-me comprometido, por estas mesmas razões, a guardar aqui relatos espontâneos de cada um desses lugares.  Nada a ver com a panorâmica das paisagens ou o motivo das mesmas, nada a ver também com o pretensiosismo de um diário de bordo, mas apenas o registo almiscarado de notas soltas que, durante essas jornadas, por razão que desconheço, colecciono em mim. Infelizmente, os mesmos motivos que me levam a cruzar estes insólitos lugares são os mesmos que me têm retirado a disponibilidade para trazer à escrita as anotações que me prometi mais verter em texto. Depois o tempo passa, …

Desta vez fui parar à Grécia, perto de Salónica, a um local de veraneio chamado Kalithea Halkidiki. Como das outras vezes não tenho impulso para tratar com o esmero que a escrita partilhada justifica as tais notas avulso que me foram povoando a cabeça. Não obstante, pelos motivos que já aleguei, quero aqui crivar um espaço que, pelo menos a mim, se não a mais  ninguém, me estimule a revisitar o que então me ocorreu, que agora apenas anoto, na esperança que quiçá um dia o possa tratar mais cuidadamente.

Estamos em 2015, Junho, porventura no momento mais crítico de todo o confronto bélico entre a Grécia a UE e outras tantas demais instituições cuja denominação, com o distar do tempo, pouco importarão. O que daí nos chega continua a ser propagado da mesma forma de sempre, de mão em mão. Por mais ágeis que sejam hoje os meios tecnológicos de disseminação, por mais espontânea e fértil que seja a informação, continuamos a comunicar e a integrar a informação como sempre o fizemos, a partir da percepção anónima de alguém, emitindo de algures, construindo, por maioria de razão, a nossa própria razão das coisas.

Registo aqui, para mim, depois de uns banhos no Egeu e uns mergulhos nas comunidades locais, os acertos que decidi fazer à minha verdade das coisas:

1. qual grécia?

Salónica é a segunda maior cidade da grécia, desde que é grécia, o que apenas acontece há pouco mais de 100 anos. Basta olhar para o mapa para perceber que sempre foi campo de passagem entre dois continentes e várias turbas civilizacionais, enfim, o que lhe quiserem chamar, que a mim não me dá tempo para detalhes nem qualquer tipo de rigor histórico. Quando viajo escrevo com os olhos que levei, e esse é o registo que aqui me importa. Chego de noite, ainda a tempo de desentorpecer as pernas na zona central da cidade, numa noite quente à beira-mar e amaciando as agruras de uma tortuosa viagem com o travo gelado da cerveja local. A propósito, 8 euros, repito, 8 euros num balcão de bar de rua, ainda que na zona boémia da cidade. Cidade de grande azáfama universitária, está pejada de gente nova e com o cair da noite o ribombar daquela música incompreensível que se espraia pela babuja da cidade, como em qualquer outra cidade do sul, com o mesmo tempero climático e cheiro a verão. E assim vagueando. De esquina em esquina a mesma música, o mesmo tipo de pessoas, a mesma cultura… Nada disso! De esquina para esquina tudo mudava. Aqui os gregos ocidentalizados, de influências mais sulistas, essa coisas da poliponésia ou assim, aqueles que de atenas trazem a imagem da grécia europeizada ao resto do mundo e com eles o badum badum badum, das músicas que nos esvaziam os ouvidos nesse tipo de ambiente. Na esquina seguinte as shakiras, de saiotes rendilhados, os homens aturquesados, manga cava tatuada, verdadeiroos espécmes de ‘quaresmas’ a dominar, bamboleando em cima das mesas, ao som de uma música que para os meus pobres ouvidos poderia ser grega mas que jurarei seria algo diferente, ainda que com um distintivo balanço do levante oriental. Aqui a história dos cruzamentos civilizacionais, das famílias que foram ficando de outros tempos, lá em baixo daqueles outros que foram subindo, primeiro no arquipélago, primeiro ocupantes, depois provavelmente proclamados gregos de verdade. Há medida que vou caminhando esvaie-se o som da europa e entra em crescendo a batida turca, mais uns passos e vice-versa.

E fico a matutar, enquanto caminho em círculos, o que virá a ser esta cidade sem encanto, uma atenas do norte, um balcão partilhado num corredor de migrações, no dia do colapso social. E fico apenas a pensar no que se passará entre cada esquina, entre os bares da música badum badum e os bares das shakiras, e aqui a distender-me para o passsado recente, tão inverosivelmente perto de nós, lá pelas ex-terras da jugoslávia e do horror do que se passava de cada lado da mesma rua, entre famílias.

Oxalá, estes olhos de turista, estes fracos ouvidos para a música, se enganem. Oxalá a música, de bar para bar, seja afinal a mesma.

2. qual realidade?

Agora vou sendo conduzido até ao local da reunião, simpaticamente escolhido à beira-mar. O meu parceiro grego é de uma simpatia que só encontro em Portugal. A mulher, por cortesia acompanha-nos. A conversa, inevitavelmente, roça o (des)esperado. Do desfile da desgraça que me vai contando, sobre o desemprego, a baixa dos ordenados e das pensões, etc – ao longo do qual eu me arrisco a ir interrompendo apenas para fazer notar um “nós também, é só dividir por dois” – tudo é culpa dos alemães. Ele é professor universitário, os dois rapazes estudam em Inglaterrra e a outra filha, mais recentemente, está em Paris, diz-me a simpática senhora. E que por muito que lhe custe lá vai aconselhando que fiquem por lá, “nós também” vou acrescentando ” nós também”. E por fim, lançado num enorme suspiro, termina: “que posso eu fazer por eles? sou reformada, cortaram-me 30% da pensão!”

A lacrimosa senhora, uma simpáctica reformada de pensão cortada, tinha 57 anos. Cinquenta e sete anos. São uns malandros estes alemães.

3. qual europa?

Chegados finalmente ao destino. Uma língua de terra,  pejada de hoteis para turistas e casas de fim de semana para os mais afortunados de salónica,  tudo ainda semi-habitado nesta altura precoce do verão. O hotel, enorme, sobranceiro sobre a praia, não deixa de respirar aquela atmosfera de Inatel para reformados, mas está limpo de mofo, reconstruído e tem uma praia invejável, para quem ao fim de um dia de meeting aspire a experimentar uns mergulhos. Mas os hóspedes, há algo de estranho com estes hóspedes. Um olhar desumanizado, a falta de gentileza e uma linguagem gutural que mesmo para um leigo como eu dá para perceber que não é o grego. Ao jantar questiono-os, aos meus anfitriões gregos. Baixam o olhar enquanto respondem: “são russos”.

Dois dias depois, acabado o meeting, tempo para visitar a terreola mais próxima para um típico jantar do finar do dia nas sempre agradáveis varandas que se debruçam em  toalhas de quadrados vermelhos e brancos e pratos de azeitonas sobre o beira-mar mediterrânico. Mas ainda nem chegados, ou melhor, chegados à sua periferia, lojas, e lojas, e lojas. Normal numa zona turística de veraneio. Não fossem todas elas lojas de peles. A cada 10 metros uma placa dizia sempre o mesmo “Mexa”, ou algo assim – hieroglificamente não me é fácil ser rigoroso. Perguntei-lhes o que queria aquilo dizer ao que me responderam “creio que quer dizer peles”. “Como assim, não têm a certeza?”, eu na estranheza. E eles de novo desviando os olhos, “não, está em russo”.

Ocorreu-me que a primeira visita de estado do Tsipras, a qual aliás achei estranha na altura, tinha sido à Rússia, ao Sr. Putin. Agora já não a acho assim tão estranha, ainda que suspeite que a maior parte da europa, inocentemente, a continue a achar descabida.

 

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