Monthly Archives: Agosto 2015

da escrita mortal

Da minha viagem pelos blogues, que dura para mais de 12 anos, já poucos paradeiros conservo. Durante muito tempo foram breves rotinas na inauguração de todas as manhãs. Enquanto, no alvoroçado tráfego, alguns iam pousando de semáforo em semáforo, eu, livre disso, para alcançar o trabalho, pausava de blogue em blogue.

Mas hoje já não. Cansei-me, os blogues cansaram-se, muitos despareceram, acabámo-nos mutuamente. A minha lista de favoritos, por onde saltitava e de onde provinha a maior fatia da minha leitura dessa altura, resume-se hoje a visitas esporádicas a não mais de meia dúzia de blogues. Sei que nunca me libertarei desse impulso, esse clique de curiosidade que me leva ocasionalmente a revisitar um ou outro, mas já quase nunca repito esse hábito de forma consistente, que acabou assim por se transformar em espaçados impulsos, meio involuntários, meio erráticos.

É no entanto um clique de mãos que sei que nunca me abandonará. Descobri nesta experiência que gosto da escrita anónima, aberta, não condicionada à exposição do seu autor ou a um propósito ou argumento de fundo. Uma escrita livre que não encontro em mais nenhum lugar quando a consumo na forma publicada, seja em livros, brochuras publicitárias ou notícias. E nestes incluo também os blogues com missões informativas ou políticas porque esses, hoje, estão mais do lado dos ‘instrumentos media’ do que dos projectos de escrita pessoal que eu ainda reconheço e que aqui destaco.

Os blogues (esses que não os instrumentos media que acima refiro, esses que são os ‘meus blogues’) acomodam a liberdade da escrita pública: todos os podem escrever e todos os podem ler. Por isso muitas vezes são vulgares e carrascos da arte da escrita. Conciliar a multitude e a qualidade, simultaneamente, como em tudo, também na escrita é algo improvável. Mas, e porque são imensos, há-os de todas as naturezas, o que inclui também aqueles que contradizem qualquer juízo ou consideração que sobre os mesmos, de uma forma global, se queira arriscar.

E aqui chegamos ao que aqui me prendeu, nisto dos blogues e ao que aqui me fará voltar sempre, ainda que esparsamente: ‘esses’ blogues! São poucos já os que visito e são poucas as vezes em que o faço, como já disse, mas quando calha mergulhar num deles volto a recuperar a sensação deliciosa desta leitura invulgar. É um prazer poder ler boas palavras, às vezes lavradas com uma originalidade surpreendente e um cuidado irrepreensível, num momento avulso que alguém desconhecido, do íntimo da sua vida, se dispõe partilhar connosco. Raramente há nisso propósitos e significados, que não outros do que aqueles que o autor, provavelmente de forma impulsiva, deixou correr. E essa escrita em liberdade que anda por aí, quase apócrifa, quando se pincela com o dom do bem escrever, será sempre um momento de deleite que dificilmente encontrarei noutra forma de leitura.

Há uns dias atrás andei a procurar “A Memória Inventada(já sem link), para mim um dos melhores blogues de sempre, escrito genialmente, pejado de descrições que me traziam também, de uma forma deliciosa, as memórias da minha juventude, já que estas também comuns às do autor. Desaparecido! Hoje, quase por acaso, passei pelo “Ana de Amsterdam(ainda com link) e andei a desembrulhar leituras, e a deleitar-me com algumas delas. Aparentemente este ainda existe e até ele ainda vou encontrando o caminho, mesmo que incidentalmente. E outros, ainda que escassos, também. Ainda.  Como é possível que o mesmo espaço (a blogosfera) que estimula e nos presenteia com peças extraordinárias de literatura, de um dia para o outro as impluda, sem que uma vírgula sequer tenha sobrevivido de um texto que nos maravilhou, sem um sinal deixado sobre o seu novo paradeiro, sem nada mais que não um banner comercial a informar-nos sobre os melhores comprimidos para o tesão?!

Se calhar é isso que também me encanta, essa fragilidade dos blogues, a mortalidade da sua escrita. O mesmo ímpeto que leva alguém a partilhá-la connosco, de forma espontânea e por vezes tão íntima, é o mesmo que o condena à sua efemeridade. Como se fosse uma janela distraidamente deixada aberta, por onde podemos ir dando uma espreitadela para um lugar de alguém, até que um dia a encontramos fechada. Como se um blogue, porque um dia morre, fosse por isso uma pequena peça de vida. Se calhar é essa sua condição humana, emanada do seu autor, que tanto o distingue da altiva escrita grafada, algures desmaiada na prateleira de uma estante empoeirada.


hoje lembrei-me de ti pá

O nosso passado, a nossa história e memórias, por mais egocêntricos que sejamos, nunca será absolutamente nosso. Parte de nós é guardada nos outros, naqueles que nos rodearam de perto. Sem eles essa parte nunca existiu. Sem eles ficamos apenas com a parte que de nós guardamos.

Já entrámos em Agosto e o sol está a pedir meças. Um destes dias parto para o algarve mas, entretanto, enquanto alcanço algumas folgas pelos dias que correm, vou desembrulhando o verão. E a forma mais fácil de lhe ganhar apetite é recordá-lo. Foi assim que comecei por aí fora, a revisitar-me, desenrolando anos e mais anos para trás e acabei num trecho perdido da memória: acordo debaixo de um barco pesqueiro, com os lábios embrulhados na areia e um hálito de fazer arrepiar o alcool.  Um fio de sol pica-me as pálpebras, a ressuscitar-me com berros de brilho do meio destroço em que me sinto e, lentamente, vou acordando para o mundo. Os sons primeiro, ao fundo primeiro, o mar, a situar-me. Depois, mais perto, as famílias, a chegarem à praia, a invadirem-nos o território estremunhado da matina com gargalhadas metálicas, esganiços de arrepiar. E depois, ainda mais ao perto, vozes que se embrulham umas nas outras. Foi aí que encontrei a tua, a pedir meças aos dois PI’s de cacetetes baloiçantes, apesar de provavelmente não estares muito melhor que eu. Eras sempre tu a arranjares confusão. E a resolveres depois as coisas. Nunca percebi como é que alguém com tanta propensão para nos meter em sarilhos, pode ser também o que mais aptidões tem para nos tirar deles.

Ainda ri, ainda rimos, os dois, nesse instante que te conto, esse instante de lá do fundo dos nossos dias, que não são meus nem teus, mas esses do verão que era dos dois. O verão volta todos os anos, parece. E acontece que todos os anos, porque me faço mais retardado em partir que a outra Lisboa inteira e preciso de aditivos para sobreviver aos dias que o antecedem, fico por cá o antecipá-lo. Hoje, um instante, amanhã um episódio e assim fico ziguezagueando nesses tempos em que o algarve era ao mesmo tempo uma praia e uma noite imensa e o verão nunca acabava. E acontece que nisso, nessas viagens planadas onde me lanço pela memória, todos os anos te volto a encontrar lá. Uma boa parte desses verões, que não é minha, tens tu guardada contigo. Sabes, eu prefiro assim. Assim, sempre que o trouxer de volta, lá terei de te encontrar de novo. Tu lá, o rapazola de sempre. O primeiro a arranjar confusão e a chegar às miúdas mais giras.

Um abraço pá e até daqui a uns dias.

 


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