O nosso passado, a nossa história e memórias, por mais egocêntricos que sejamos, nunca será absolutamente nosso. Parte de nós é guardada nos outros, naqueles que nos rodearam de perto. Sem eles essa parte nunca existiu. Sem eles ficamos apenas com a parte que de nós guardamos.
Já entrámos em Agosto e o sol está a pedir meças. Um destes dias parto para o algarve mas, entretanto, enquanto alcanço algumas folgas pelos dias que correm, vou desembrulhando o verão. E a forma mais fácil de lhe ganhar apetite é recordá-lo. Foi assim que comecei por aí fora, a revisitar-me, desenrolando anos e mais anos para trás e acabei num trecho perdido da memória: acordo debaixo de um barco pesqueiro, com os lábios embrulhados na areia e um hálito de fazer arrepiar o alcool. Um fio de sol pica-me as pálpebras, a ressuscitar-me com berros de brilho do meio destroço em que me sinto e, lentamente, vou acordando para o mundo. Os sons primeiro, ao fundo primeiro, o mar, a situar-me. Depois, mais perto, as famílias, a chegarem à praia, a invadirem-nos o território estremunhado da matina com gargalhadas metálicas, esganiços de arrepiar. E depois, ainda mais ao perto, vozes que se embrulham umas nas outras. Foi aí que encontrei a tua, a pedir meças aos dois PI’s de cacetetes baloiçantes, apesar de provavelmente não estares muito melhor que eu. Eras sempre tu a arranjares confusão. E a resolveres depois as coisas. Nunca percebi como é que alguém com tanta propensão para nos meter em sarilhos, pode ser também o que mais aptidões tem para nos tirar deles.
Ainda ri, ainda rimos, os dois, nesse instante que te conto, esse instante de lá do fundo dos nossos dias, que não são meus nem teus, mas esses do verão que era dos dois. O verão volta todos os anos, parece. E acontece que todos os anos, porque me faço mais retardado em partir que a outra Lisboa inteira e preciso de aditivos para sobreviver aos dias que o antecedem, fico por cá o antecipá-lo. Hoje, um instante, amanhã um episódio e assim fico ziguezagueando nesses tempos em que o algarve era ao mesmo tempo uma praia e uma noite imensa e o verão nunca acabava. E acontece que nisso, nessas viagens planadas onde me lanço pela memória, todos os anos te volto a encontrar lá. Uma boa parte desses verões, que não é minha, tens tu guardada contigo. Sabes, eu prefiro assim. Assim, sempre que o trouxer de volta, lá terei de te encontrar de novo. Tu lá, o rapazola de sempre. O primeiro a arranjar confusão e a chegar às miúdas mais giras.
Um abraço pá e até daqui a uns dias.
7 de Agosto, 2015 at 5:40 pm
2 belos …
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8 de Agosto, 2015 at 10:29 am
Bjs
T
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