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mais uma viagem pelos lábios dela

Chego a casa já noite avançada e encontro-a a dormir no sofá. Aproximo-me, cautelosamente. Seria embaraçoso que ela despertasse e me visse este olhar d’agora. E escusável. Sei que se isso acontecesse iria ainda acicatar-me mais a fúria com que horas antes, estrondosamente, ali a havia deixado. Mas algo em mim não resiste, algo em mim não lhe resiste. Ajoelho-me ao seu lado e aproximo-me ainda mais. Quase lhe toco a respiração.

Deixo-me assim ficar, pairando sobre os seus olhos fechados e depois seguindo-lhe as rugas que deles divergem, lendo-a. Cada uma dessas linhas lavra um tempo, pessoas, episódios, troços do passado que revivo, onde a encontro, e onde ela me vê. São traços dela que são já meus também, de um passado cada vez mais partilhado e prolongado que assim se sulca. Nenhum passado é igual nem de igual se conta cada passado, mas o meu passado já é tanto dela que se por ela contado seria mais franco do que por mim relatado. Continuo a seguir-lhe esse raiado que lhe nasce dos cantos dos olhos, e o passado que percorro nele, a forma como o conta, é um passado preenchido, sereno, bastante. Olho-o (olho-a) e compreendo como isso é indissociável de mim, e como conheço tão bem cada milímetro que percorro na sua face quase como se fora um episódio particular da minha vida. Olho-a e apercebo-me como é bom poder ter ela também para contar a minha vida, como é bom poder ser ela a fazê-lo, e bem melhor do que eu.

Depois desço para a sua boca e aí me perco mais um tempo. Aqui não é o passado que repousa. Os seus lábios falam-me do futuro, do que ainda temos para sorver, da carne e do desejo, do que agora sinto por eles e do que tanto deles quero amanhã. São generosos, grandes, vivos. Percorro lentamente com o dedo as suas curvas adormecidas e sigo tacteando o desenho desse viver sereno e carnudo, capaz de sussurrar subtilmente o que tantas vezes me falta nos gritos desvairados do fim do dia.  Contorno-os até tocar o arrebique de felicidade que volteia os seus cantos. Ali onde as duas linhas se tocam, no exacto ponto onde se forma o seu sorriso, é ali onde quero que se abrigue a minha vida, que nada há que conheça que tão veementemente me fale da felicidade por diante, ali mesmo, nesse futuro onde quero estar. Há neles uma curva arredondada que sabe fruir o que vem enquanto eu estou demasiado ocupado a prever o que depois se seguirá. Esses lábios são o que traz o nosso futuro. Não o que eu planeio, antecipo, alvitro e acautelo, e que de tão ocupado nisso me esqueço de receber, mas aquele que nos chega agora, o futuro que nos entra pela vida adentro e que, aqui chegado, encontra nela quem o receba.

Agora afasto-me, subitamente. Não quero que as convulsões de riso que me atravessam a despertem. Rio de mim: acabo de determinar que o meu amuo, desta vez, por mais esta vez, expirou. Que importa toda a razão do mundo e mais as minhas justificadas iras, se dela tenho os seus lábios. Se neles repousa o nosso agora que tantas vezes desperdiço.


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